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Opinião

Usinas eólicas offshore: a última fronteira do setor eólico brasileiro

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Acesse a notícia original aqui.

Sim, o título é provocativo. Tenho certeza que muitos irão se perguntar: como assim, a última fronteira, se mal começamos a explorar a energia eólica no país? Ao longo do texto evidencio fatores que em breve farão com que o país se lance ao mar ou, pelo menos, antecipe o fato. Posso estar errado, evidentemente. Desta forma, não deixe de fazer sua análise crítica e faça o seu comentário. O objetivo é esse mesmo, o debate, onde crescemos todos.

De acordo com o CRESESB, em 2001, o potencial eólico do Brasil foi estimado em 143 GW, à altura de 50 m do solo, que não considerava o potencial marítimo. Para se ter uma ideia de quão representativo é esse valor, atualmente o país conta com aproximadamente com essa mesma potência instalada, considerando todas as fontes de geração de energia elétrica (hidráulica, térmica, eólica, fotovoltaica, nuclear, biomassa).

Em 2010, o próprio CRESESB reavaliou o potencial para a altura de 100 m do solo, cravando um número bem mais expressivo, 300 GW (não existe publicação a respeito, apenas um ppt do MME). Mais recentemente, a revista Cenários Energia Eólica, Anuário 2015/2016, da Editora Brasil Energia, trouxe um balanço ainda mais surpreendente: quatro estados brasileiros revisaram os respectivos atlas eólicos (Bahia, Ceará, Pernambuco e Rio Grande do Sul) e, somente considerando esses quatro estados, o potencial estimado chegaria a mais de 700 GW!!!

Entretanto, apesar desse número grandioso, a realidade mostra que os sítios mais promissores estão se esgotando. Atualmente, com pouco mais de 10 GW de potência instalada e 8 GW a serem entregues nos próximos anos, parques eólicos com fatores de capacidade acima de 45% deverão ser cada vez mais raros.

Alguns motivos que tendem a reduzir a exploração do potencial eólico no continente são os seguintes:

  • Para viabilizar empreendimentos eólicos em áreas com velocidades médias anuais de vento inferiores a 7 m/s a 100 m de altura será necessário que os preços dos leilões sejam mais atrativos do que aqueles recentemente praticados. Neste caso, pode ser que a ANEEL e a EPE considerem que esta não seja a melhor estratégia para a expansão da geração e poderá optar por outras renováveis, como as PCHs e a fotovoltaica. Entretanto, essas áreas são de grande interesse da geração distribuída, micro e minigeração, pois a referência econômica é o preço da energia paga pelo consumidor de baixa tensão.
  • Incra: muitas áreas em regiões de grande potencial eólico pertencem ao Incra, que aumenta o risco dos empreendimentos. Veja na figura a seguir a situação do Rio Grande do Norte. Todas as áreas em vermelho pertencem ao Incra.

  • Áreas de preservação ambiental: alguns estados são mais criteriosos com a avaliação dos empreendimentos eólicos e seus impactos no meio ambiente, como o Rio Grande do Sul, através do órgão ambiental, a FEPAM. O documento que encontrei pode ser visto aqui, mas existe um outro mais atual que não consegui encontrar, onde mostra que as áreas de preservação são muito coincidentes com as áreas de melhor recurso eólico. A figura a seguir é apenas um exemplo, em relação à avifauna.

  • Distância mínima entre parques eólicos vizinhos: a resolução normativa Aneel 675/2015, esclarece que “região de interferência é a região que dista de 20 vezes a altura máxima da pá, considerando-se todas as direções do vento com permanência superior a 10% (dez por cento)”. Portanto, se um determinado empreendedor obtém a DRO de seu(s) parque(s) eólico(s) e um outro empreendedor quiser implementar parque(s) eólico(s) nas vizinhanças daqueles já cadastrados, não poderá violar o critério estabelecido pela região de interferência. Exemplificando, considere um aerogerador de 120 m de altura e uma pá de 60 m de comprimento, essa região de interferência equivale a uma distância de 3,6 km ((120+60)x20=3.600 m) nos setores da rosa dos ventos em que a permanência da direção do vento é superior a 10%! Essa distância é imposta para que o vento recomponha seu perfil, livre de turbulências, para que não imponha perdas aerodinâmicas no(s) parque(s) já habilitado(s). Uma solução para o novo investidor, se não quiser obedecer essa distância, é entrar em contato com o seu vizinho e fazer as devidas compensações financeiras pelas perdas aerodinâmicas. Neste caso, a rentabilidade do investimento tende a cair, podendo inviabilizá-lo. O resultado desta limitação da região de interferência é a formação de “ilhas” entre parques eólicos.
  • Especulação fundiária: outro fato comum é que muitos proprietários de terras tentaram ganhar um pouco mais nas negociações e perderam a oportunidade de venda, ficando “ilhados”, observando os vizinhos prosperarem pelo recebimento da receita proveniente do arrendamento e da produção de energia. Essas áreas poderiam ser utilizadas, por exemplo, para instalação de usinas fotovoltaicas, que contariam com uma vantagem muito importante: o acesso ao sistema elétrico, que já foi expandido para conectar as usinas eólicas.
  • Esgotamento do sistema e dos corredores de transmissão: quando existe concentração da exploração de uma determinada fonte de energia, os sistemas de transmissão para escoamento da produção tendem a ser concebidos em corredores, limitados por diversas questões. Assim, se uma determinada região não é explorada, poderá ser inviabilizada no futuro, pois tais corredores não comportariam mais a expansão. Proprietários que tentam obter um melhor preço de arrendamento correm o risco de perder a janela de oportunidade.
  • Áreas urbanas: estima-se que 13% do território nacional é ocupado pelas cidades e povoados. Em algumas delas, o potencial eólico é significativo, como as capitais do Nordeste, o que empurra os empreendimentos para o interior desses estados e para as faixas litorâneas ainda não ocupadas.
  • O Nordeste tem experimentado uma expansão rápida e intensa, concentrando aproximadamente 85 % da potência instalada do Brasil. De acordo com a agência de notícias Ambiente Energia, usando dados de junho/2017 do ONS, “a geração eólica já responde por cerca da metade do total de energia produzido na região Nordeste”. Eu ainda não li nenhum estudo, mas acredito que se não fosse a fonte eólica, o Nordeste estaria enfrentando um forte racionamento de energia elétrica.

Esses fatores irão desencadear alguns processos:

  1. Necessidade de tarifas de leilão mais atrativas para viabilizar a expansão eólica.
  2. Diversificação da expansão: o Nordeste concentra 85% da potência instalada em energia eólica. Áreas que atualmente não são competitivas, como algumas regiões do Espírito Santo, Paraná, Santa Catarina, São Paulo e Roraima (esse último tem questões logísticas e ambientais um pouco mais desafiadoras), poderão ser beneficiadas. Para o setor energético e para a economia como um todo, é uma boa notícia, uma vez que aproveita a complementaridade eólica-eólica e desenvolve a cadeia de produtos e serviços em outros estados.
  3. Concorrência com as demais fontes de energia será mais acirrada: o valor de leilão por MWh que já alcançou o piso de R$ 100, competindo inclusive com as grandes hidrelétricas, nunca mais se repetirá.
  4. Viabilização da expansão eólica offshore.

O item 4 poderá ser um fator de expansão no médio e longo prazo. Observe as duas figuras que ilustram esse post. Na figura da esquerda, que mostra parte do Cone Sul, existe uma região no litoral do Rio Grande do Sul, com ventos superiores a 9 m/s, a 100 m de altura. No caso do Nordeste, ao norte dos estados do Ceará e Rio Grande do Norte e à leste de Alagoas, Paraíba e Pernambuco, aparecem duas grandes “manchas” na cor rosa, indicando ventos com velocidades média de ventos superiores a 10 m/s!

Se, com ventos com velocidade média de 8 m/s a 100 m, existem parques eólicos no continente com fator de capacidade superior a 50%, imagine a produção de energia com ventos à velocidade média de 10 m/s à mesma altura?

Evidentemente, muitas questões precisam discutidas e resolvidas (regulatórias, ambientais, logística, etc), uma vez que o assunto é novo no país e os investimentos deverão elevadíssimos para viabilizar a fonte offshore, mas não deixam de mostrar um futuro promissor.

Nossas principais autoridades, ANEEL, EPE, MME, ONS, Eletrobrás, deveriam estar já de olho nessas questões. Que bons ventos nos levem!

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