É sempre tentador cair na armadilha e na falácia que muitos economistas e/ou governantes populistas caem em apontar déficits em conta corrente como uma evidência cabal quanto a fragilidade de um país.

Carlos Herrero

É sempre tentador cair na armadilha e na falácia que muitos economistas e/ou governantes populistas caem em apontar déficits em conta corrente como uma evidência cabal quanto a fragilidade de um país. Por outro lado, nesse mesmo grupo acabam defendo superávits em contas externas como um indicador de saúde de uma nação. Obviamente que déficits em conta corrente crescentes incorridos apenas para financiar o consumo doméstico podem ser indícios de problemas de financiamentos lá na frente, em caso de ocorrência de sudden stops ou saídas de capital como forma de aproveitar melhores retornos no mercado internacional.

Mas o post de hoje que inicia uma (espero) longa trajetória nesta plataforma, busca discutir sobre os acertos e erros crassos de alguns governantes de países em relação ao tratamento de suas contas externas. Os leitores mais atentos já devem saber sobre que estou escrevendo. Claro. Do presidente Donald Trump, que tem dado sinais inequívocos e falaciosos sobre o mal de um país em apresentar déficits em suas contas externas. Como se o mercado internacional fosse um jogo de soma zero. Se eu compro mais de você e você vende mais para mim, continua a explicação profunda e sofisticada, pior para mim e melhor para o país superavitário. Nada mais raso do que essa conclusão.

Vejamos: Se eu não tenho vantagens comparativas na produção de determinado bem ou serviço, porque não o adquirir do exterior e focar naquilo que apresento maiores vantagens comparativas? Seria realmente melhor um país produzir a maior parte do que consome no seu país, apesar de prejudicar a maioria da população que terá de comprar um produto mais caro, em benefício de minorias organizadas que gritam para defender seus empregos? Certamente essas minorias não estão erradas, errado está o governo que busca atender o interesse dos que gritam mais alto prejudicando a maioria da população.

Felizmente identidades macroeconômicas não obedecem a bravatas, mesmo que de superpotências. Com a política fiscal expansionista de Trump, que cortou impostos das empresas de 35% para 21% propiciando um maior consumo para a população norte-americana e maiores investimentos, apesar deste último ainda ser duvidoso, dado que antes do corte dos impostos as empresas do país estavam nadando em caixa, então muito provavelmente esse benefício fiscal foi muito mais traduzido em maior consumo do que maiores reinvestimentos das empresas. Mas a questão não para por aí.  De acordo com o último reporte do Treasury and Office Management and Budget, o déficit fiscal dos EUA alcançou US$779bn no ano fiscal de 2018 ou 3.9% do PIB ou 0.4% maior que o déficit fiscal de 2017, graças ao expansionismo fiscal de Trump.

Mas o que isso tem a ver com as contas externas do país? Primeiramente peço desculpas aos leitores que começaram e talvez já abandonaram essa leitura, para uma pequena demonstração básica sobre identidade macroeconômica:

A identidade contábil da renda nacional formada pelas contas nacionais constitui-se a base do pensamento Keynesiano. Em uma economia aberta, o PIB (Produto Interno Bruto) pelo lado da demanda é formado por todos os fatores internos de absorção de demanda (A): Consumo (C), Investimento (I) e Gastos Governamentais (G), além das Exportações (X) e Importações (M). Portanto, assumindo uma economia aberta, a identidade de renda nacional pode ser expressa como segue:

PIB = C  +  I  +  G  +  X  –  M                (1)

Como a equação (1) mostra os fatores internos e externos que constituem o PIB de uma nação, se desejarmos avaliar não apenas o PIB, mas também o PNB (Produto Nacional Bruto) de um país, que engloba a renda líquida do exterior, teremos:

PNB = PIB + NFA

Onde:

NFA = Renda Líquida do Exterior (juros, dividendos, etc.)[1]

Portanto:

PNB = C + I + G + X – M + NFA                        (2)

Se assumirmos, pra efeito de simplificação que Transferências Unilaterais (TU) seja igual a zero então:

(X – M + NFA) = Conta Corrente do Balanço de Pagamentos (CC)

e

PNB = Y

Subtraindo T (impostos ou receitas do governo) e rearranjando os termos da identidade (1) teremos:

Y – C – T – I  +  T – G = X – M + NFA

Sabemos que:

Y – C – T = Poupança Privada (Sp)[2]

(T – G) = Poupança Pública ou do Governo (Sg) e,

X – M + NFA = Conta Corrente (CC)

Portanto;

(S – I) + (T – G) = CC                (3)

A identidade contábil (3) é bastante reveladora na medida em que expressa o saldo em transações correntes de uma nação como o excesso ou escassez de poupança doméstica (privada e ou pública) em relação aos seus gastos (privado ou público).

Obviamente que essa identidade contábil não implica em nenhuma direção de causalidade, mas assume que as condições em um país afetam as condições outro país. Ou seja, se um país, digamos A decide aumentar seus gastos privados ou públicos, além de sua produção doméstica, então necessariamente deverá haver uma reação oposta de outra nação, o que equivale a dizer que essa outra nação deverá reduzir seus gastos e aumentar sua poupança privada ou pública, para atender esse aumento dos gastos privados ou públicos do país A. Por outro lado, se um país, digamos B decida, por meio de políticas públicas, reduzir a renda disponível das famílias represando o consumo privado e aumentando a poupança doméstica, então novamente uma reação oposta deverá ocorrer em outra nação. Esse excesso de poupança constituído no país B será canalizado para o país A para atender a insuficiência de poupança desse outro país. Novamente, a discussão da causalidade é infindável, mas o fato de que o superávit de um país necessariamente deverá ser o déficit de outro país é incontestável.

Dito isso, como será que o presidente dos EUA, apesar de toda sua “eloquência” em defender “America first” colocando trade frictions em seus parceiros comerciais logrará diminuir seu déficit nas contas externas se os EUA continuam consumindo cada vez mais e poupando cada vez menos? Poder-se-ia argumentar que a política contracionista do Federal Reserve seria o culpado pela apreciação cambial, o que fatalmente prejudicaria as contas externas do país. Mas a identidade ainda continua soberana, pois uma apreciação da moeda doméstica, no caso o USD, aumentaria ainda mais o poder aquisitivo da população dos EUA, levando-os a consumir além de sua produção, o que resultará fatalmente em maiores déficits em suas contas externas.

A grande dúvida ou o grande perigo à resposta para essa conclusão simples que se utiliza de uma identidade macroeconômica é se Donald Trump perceberá em tempo, que sua política fiscal expansionista apenas piorará seus déficits nas contas externas ou intensificará e apontará suas armas para outros países como culpados por seu crescente déficit, prejudicando o já frágil equilíbrio comercial e geopolítico em algumas regiões. Aliás o que menos o mercado financeiro internacional e o preço de ativos precisam são recrudescimento de tensões comerciais e geopolíticas. Acredito que até o final de seu mandato, Trump acabará culpando o país Tuvalu pelo seu desequilíbrio comercial, mas nunca sua política equivocada.

[1] NFA = Net factor Income from Abroad

[2] S = Savings

Por outro lado, nesse mesmo grupo acabam defendo superávits em contas externas como um indicador de saúde de uma nação. Obviamente que déficits em conta corrente crescentes incorridos apenas para financiar o consumo doméstico podem ser indícios de problemas de financiamentos lá na frente, em caso de ocorrência de sudden stops ou saídas de capital como forma de aproveitar melhores retornos no mercado internacional.

Mas o post de hoje que inicia uma (espero) longa trajetória nesta plataforma, busca discutir sobre os acertos e erros crassos de alguns governantes de países em relação ao tratamento de suas contas externas. Os leitores mais atentos já devem saber sobre que estou escrevendo. Claro. Do presidente Donald Trump, que tem dado sinais inequívocos e falaciosos sobre o mal de um país em apresentar déficits em suas contas externas. Como se o mercado internacional fosse um jogo de soma zero. Se eu compro mais de você e você vende mais para mim, continua a explicação profunda e sofisticada, pior para mim e melhor para o país superavitário. Nada mais raso do que essa conclusão.

Vejamos: Se eu não tenho vantagens comparativas na produção de determinado bem ou serviço, porque não o adquirir do exterior e focar naquilo que apresento maiores vantagens comparativas? Seria realmente melhor um país produzir a maior parte do que consome no seu país, apesar de prejudicar a maioria da população que terá de comprar um produto mais caro, em benefício de minorias organizadas que gritam para defender seus empregos? Certamente essas minorias não estão erradas, errado está o governo que busca atender o interesse dos que gritam mais alto prejudicando a maioria da população.

Felizmente identidades macroeconômicas não obedecem a bravatas, mesmo que de superpotências. Com a política fiscal expansionista de Trump, que cortou impostos das empresas de 35% para 21% propiciando um maior consumo para a população norte-americana e maiores investimentos, apesar deste último ainda ser duvidoso, dado que antes do corte dos impostos as empresas do país estavam nadando em caixa, então muito provavelmente esse benefício fiscal foi muito mais traduzido em maior consumo do que maiores reinvestimentos das empresas. Mas a questão não para por aí.  De acordo com o último reporte do Treasury and Office Management and Budget, o déficit fiscal dos EUA alcançou US$779bn no ano fiscal de 2018 ou 3.9% do PIB ou 0.4% maior que o déficit fiscal de 2017, graças ao expansionismo fiscal de Trump.

Mas o que isso tem a ver com as contas externas do país? Primeiramente peço desculpas aos leitores que começaram e talvez já abandonaram essa leitura, para uma pequena demonstração básica sobre identidade macroeconômica:

A identidade contábil da renda nacional formada pelas contas nacionais constitui-se a base do pensamento Keynesiano. Em uma economia aberta, o PIB (Produto Interno Bruto) pelo lado da demanda é formado por todos os fatores internos de absorção de demanda (A): Consumo (C), Investimento (I) e Gastos Governamentais (G), além das Exportações (X) e Importações (M). Portanto, assumindo uma economia aberta, a identidade de renda nacional pode ser expressa como segue:

PIB = C  +  I  +  G  +  X  –  M                (1)

Como a equação (1) mostra os fatores internos e externos que constituem o PIB de uma nação, se desejarmos avaliar não apenas o PIB, mas também o PNB (Produto Nacional Bruto) de um país, que engloba a renda líquida do exterior, teremos:

PNB = PIB + NFA

Onde:

NFA = Renda Líquida do Exterior (juros, dividendos, etc.)[1]

Portanto:

PNB = C + I + G + X – M + NFA                        (2)

Se assumirmos, pra efeito de simplificação que Transferências Unilaterais (TU) seja igual a zero então:

(X – M + NFA) = Conta Corrente do Balanço de Pagamentos (CC)

e

PNB = Y

Subtraindo T (impostos ou receitas do governo) e rearranjando os termos da identidade (1) teremos:

Y – C – T – I  +  T – G = X – M + NFA

Sabemos que:

Y – C – T = Poupança Privada (Sp)[2]

(T – G) = Poupança Pública ou do Governo (Sg) e,

X – M + NFA = Conta Corrente (CC)

Portanto;

(S – I) + (T – G) = CC                (3)

A identidade contábil (3) é bastante reveladora na medida em que expressa o saldo em transações correntes de uma nação como o excesso ou escassez de poupança doméstica (privada e ou pública) em relação aos seus gastos (privado ou público).

Obviamente que essa identidade contábil não implica em nenhuma direção de causalidade, mas assume que as condições em um país afetam as condições outro país. Ou seja, se um país, digamos A decide aumentar seus gastos privados ou públicos, além de sua produção doméstica, então necessariamente deverá haver uma reação oposta de outra nação, o que equivale a dizer que essa outra nação deverá reduzir seus gastos e aumentar sua poupança privada ou pública, para atender esse aumento dos gastos privados ou públicos do país A. Por outro lado, se um país, digamos B decida, por meio de políticas públicas, reduzir a renda disponível das famílias represando o consumo privado e aumentando a poupança doméstica, então novamente uma reação oposta deverá ocorrer em outra nação. Esse excesso de poupança constituído no país B será canalizado para o país A para atender a insuficiência de poupança desse outro país. Novamente, a discussão da causalidade é infindável, mas o fato de que o superávit de um país necessariamente deverá ser o déficit de outro país é incontestável.

Dito isso, como será que o presidente dos EUA, apesar de toda sua “eloquência” em defender “America first” colocando trade frictions em seus parceiros comerciais logrará diminuir seu déficit nas contas externas se os EUA continuam consumindo cada vez mais e poupando cada vez menos? Poder-se-ia argumentar que a política contracionista do Federal Reserve seria o culpado pela apreciação cambial, o que fatalmente prejudicaria as contas externas do país. Mas a identidade ainda continua soberana, pois uma apreciação da moeda doméstica, no caso o USD, aumentaria ainda mais o poder aquisitivo da população dos EUA, levando-os a consumir além de sua produção, o que resultará fatalmente em maiores déficits em suas contas externas.

A grande dúvida ou o grande perigo à resposta para essa conclusão simples que se utiliza de uma identidade macroeconômica é se Donald Trump perceberá em tempo, que sua política fiscal expansionista apenas piorará seus déficits nas contas externas ou intensificará e apontará suas armas para outros países como culpados por seu crescente déficit, prejudicando o já frágil equilíbrio comercial e geopolítico em algumas regiões. Aliás o que menos o mercado financeiro internacional e o preço de ativos precisam são recrudescimento de tensões comerciais e geopolíticas. Acredito que até o final de seu mandato, Trump acabará culpando o país Tuvalu pelo seu desequilíbrio comercial, mas nunca sua política equivocada.

[1] NFA = Net factor Income from Abroad

[2] S = Savings


 

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Roberto Dumas
Mais de 30 anos de experiência no mercado financeiro. Trabalhou em instituições renomadas (UBS, Citigroup, Lloyds Bank e Itaú BBA). De 2007 a 2011 representou o banco Itaú BBA em Shanghai. Também atuou no banco dos BRICS em Shanghai (New Development Bank) na área de operações estruturadas e risco de crédito. Dumas é Mestre em Economia pela Universidade de Birmingham na Inglaterra. Mestre em Economia Chinesa pela Universidade de Fudan (China). Graduado e pós-graduado em administração e economia de empresas pela FGV e Chartered Financial Analyst conferido pelo CFA Institute (USA). Professor de Economia Internacional e Economia Chinesa do INSPER, IBMEC São Paulo, Fundação Instituto de Administração (FIA-USP) e Saint Paul Business School. Professor Convidado da China Europe International Business School (CEIBS) e Fudan University (China).

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