As empresas do setor produtivo que precisam de proteção cambial (hedge) são as mais prejudicadas com a volatilidade do dólar. Na outra ponta, investidores de curtíssimo prazo (especuladores) eficientes e intermediadores do sistema financeiro giram seus negócios.

Nos últimos 30 dias, o dólar saiu da cotação inicial de R$ 3,57 e foi a máxima de R$ 3,96 no meio da tarde de 7 de junho; recuou para R$ 3,69 em 11 de junho; para fechar em R$ 3,8095 ontem. “É muita volatilidade, e quem ganha são os traders, os especuladores de ocasião”, identifica o professor de cenários econômicos e de macroeconomia dos cursos de MBA da Faculdade Fipecafi, Silvio Paixão.

Na avaliação dele, mesmo com a possibilidade de fazer a proteção cambial (hedge) no mercado financeiro, as empresas do setor produtivo (exportadoras e importadoras) precisam arcar com esses custos (juros, margens e registros em contratos de derivativos). “Perde, principalmente, quem é devedor em dólar; devedor em insumos importados; e também o País, que é importador de poupança externa”, exemplifica Paixão.

Em linha semelhante, o economista Pedro Coelho Afonso diz que os pequenos e médios empresários que atuam no comércio exterior são os mais prejudicados pela volatilidade.

“Em geral, o pequeno e médio empresários não conhecem e não utilizam mecanismos sofisticados de proteção cambial. Fica complicado definir preço, seja para fazer uma importação ou para exportação com o dólar oscilando de R$ 3,50 a R$ 4. É difícil tomar decisões. Mesmo as grandes empresas, por mais que se faça hedge, fica-se exposto. O mercado financeiro exige margens [garantias]”, diz o economista.

Ele pondera que a escalada global do dólar está relacionada à política monetária nos Estados Unidos para conter a inflação na meta de 2% ao ano por lá. Ou seja, há também fundamentos para a elevação da moeda americana.

O Federal Reserve (FED, o BC dos EUA) elevou os juros para a faixa entre 1,75% e 2% ao ano na última quarta-feira e sinalizou mais duas altas neste ano. Esse aperto monetário nos EUA provoca saída de capital de países emergentes para o porto seguro rentável dos títulos de tesouro norte-americano (Treasuries).

Mas o economista acrescenta que a volatilidade no Brasil é agravada pela questão política interna. “Já vimos a especulação algumas vezes em anos eleitorais, o Banco Central queima reservas, vamos ver quanto vai custar essa intervenção”, alerta Coelho Afonso.

Vale lembrar que na noite de 7 de junho, após o encerramento dos negócios no mercado, o presidente do Banco Central do Brasil, Ilan Goldfajn, anunciou um volume adicional de US$ 20 bilhões em swaps cambiais. Por esse instrumento, o BC recebe juros pela venda de contratos e entrega (em reais) a variação do dólar no vencimento desses derivativos.

Com o anúncio, na data seguinte, em 8 de junho, a cotação do dólar à vista apresentou sua maior queda desde 2008, uma baixa de 5,35% para R$ 3,705 no balcão. “Quem comprou volatilidade, apostou na alta, ganhou, surfou na onda, mas também perdeu. É difícil acertar na mosca. Só profissionais muito eficientes conseguem. Tem muita gente [gestores de fundos] que perdeu dinheiro com o sobe e desce”, contou o estrategista-chefe da Levante Investimentos, Rafael Bevilacqua.

Riscos de mercado

O estrategista completou que os estrangeiros já haviam reduzido muito sua exposição ao Brasil, mas que o investidor local (fundos e pessoas físicas) ainda pode tentar recuperar parte das perdas. “Tem prêmio [ganho potencial] em juros e ativos baratos na bolsa. Só precisa de um sinal claro [dos candidatos à presidência] da continuidade das reformas. Qualquer melhora no cenário [e nas pesquisas] dará para entrar em papéis”, apontou Bevilacqua.

O arriscado “kit eleições” na bolsa de valores envolve a posição em ações de estatais como Petrobras, Banco do Brasil e Eletrobras, com a proteção em papéis de exportadoras como Embraer, Fibria, Suzano e Klabin.

Para o economista-chefe da Infinity Asset, Jason Vieira, ganhar ou perder no mercado financeiro (renda fixa e variável) depende muito da posição em que está o investidor. “O mix de dólar e juros acabou afetando curvas de curto, médio e longo prazo. Argentina, Turquia, Brasil e México passam por esse período de desvalorização em relação ao dólar ”, observa.

Sobre o ambiente conturbado desde a última reunião do Comitê de Política Monetária (Copom) encerrada em 15 de maio, Jason Vieira contou que o investidor que não esteve em uma aposta direcional ganhou, e quem apostou na piora do cenário, ganhou mais. Por outro lado, quem estava em comprado ações na bolsa antes da greve dos caminhoneiros – iniciada em 21 de maio e encerrada em 31 de maio – perdeu dinheiro.

De fato, em 30 dias, o Ibovespa caiu 16,10% do patamar de 85.130 pontos para 71.421 pontos ontem. “Esse investidor terá que aguardar [uma recuperação]”, afirma o economista.

Sobre esse forte recuo no preço dos ativos, o analista-chefe da Rico Investimentos, Roberto Indech, aponta que esse pode ser o momento de oportunidade para investidores de perfil agressivo e com horizonte de longo prazo. “Dá para começar a formar uma carteira, comprando aos poucos”, aponta.

Ao mesmo tempo, Indech alerta que o período eleitoral trará grandes oscilações na bolsa e no dólar. “Dependerá de pesquisas, dos debates dos candidatos, da decisão do TSE [sobre Lula] e do início do tempo da campanha na TV”, avisa.


 

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