Neste primeiro artigo como colunista na Pontoon-e vou enfocar um tema fundamental para o bom funcionamento do setor energético, que tem sido degradado ao longo do tempo por diversos motivos: a Operação e a Manutenção (O&M).

Tema que configura um núcleo importante do cenário da Segurança Energética, assunto que desde há muito tempo ocupa espaço prioritário do noticiário nacional, de forma cíclica e recorrente. Sempre associado a tragédias e a promessas de soluções que nunca se realizam.

O descaso com a segurança no Brasil vai muito além do setor energético. Volta e meia tomamos conhecimento de grandes desastres ambientais e sociais tais como deslizamento de terras; rompimento de barragens de projetos de mineração e de geração hidrelétrica; enchentes urbanas devastadoras; enchentes de rios “canalizados”; poluição navegante em rios e mares; mortes e desastres associados ao descaso  na fiscalização de projetos e à prática de “roubo” de energia elétrica, para citar alguns mais comuns, sem considerar outros menores que nem chegam ao conhecimento geral.

Em nosso país, Segurança e O&M são parte significativa dos problemas inculturais brasileiros. Resultantes de desconhecimento, desinformação e ignorância, mas principalmente do descaso com a fiscalização e da maior ênfase em aspectos políticos e econômicos frente aos aspectos socioambientais dos projetos.

O descaso com O&M no Brasil é um aspecto cultural que, com diferentes nuances, se encontra em praticamente todas a atividades do dia a dia, nas mais diferentes classes sociais, desde as elites financeiras e culturais até as classes miseráveis abandonadas à própria sorte.

Esse artigo e outros que virão, não irão se nestas questões fundamentais à nossa organização como sociedade: direcionarei meu foco e experiência aos aspectos práticos de segurança, operação e manutenção de projetos de geração, transmissão e distribuição no setor de energia elétrica.

Dentre as ocorrências de desastres ambientais e sociais no setor de energia elétrica se situam desligamentos do suprimento de eletricidade,  desastres ambientais em projetos de geração, quedas de torres de linhas de transmissão, quedas de postes e árvores próximas nas linhas de distribuição. Cujos resultados afetam profundamente o dia a dia da população, com danos, muitas vezes irreparáveis e cuja causa, de forma geral, pode estar em: projeto e construção; manutenção inadequada; resultar de necessidades sistêmicas que levam à operação em sobrecarga ou fora dos padrões de projeto, o que, por sua vez, pode ser indicador de inadequação em planejamento e fiscalização.

Maior ênfase numa cultura direcionada para o aperfeiçoamento do processo de fiscalização e de boas práticas de O&M certamente auxiliará a solução destas questões. Se não em curto prazo, ao menos em médio prazo. Com significativos  e positivos impactos econômicos e socioambientais. Impactos que poderiam ser facilmente estimados pelos especialistas em análise econômica. Que, com alto grau de probabilidade, poderiam custear boa parte da expansão do sistema elétrico.

Note-se que, do ponto de vista técnico, o sistema elétrico brasileiro apresenta características e desafios bastante específicos, associados às dimensões continentais do país e às grandes diferenças econômicas, sociais, ambientais, educacionais e de capacidade de absorção de tecnologias avançadas em termos regionais e locais.

Por outro lado, o setor de energia elétrico brasileiro, apesar destas peculiaridades, mas também devido às mesmas, tem sua capacitação reconhecida mundialmente, o que pode ser considerado motivo de otimismo quanto à superação dos efeitos da cultura de desleixo quanto à O&M e à segurança.

Finalizando este artigo introdutório, apresento a seguir, uma lista de diversos tópicos pertinentes ao tema levantado que serão objeto de reflexões mais aprofundadas nos próximos textos da coluna, sempre com vistas à superação da cultura de desleixo:

  • Boas práticas de operação e manutenção (O&M);
  • Aperfeiçoamento dos processos de fiscalização;
  • Processo de planejamento do sistema elétrico;
  • Aumento do grau e da eficácia dos projetos de complementação energética;
  • Conservação de Energia;
  • Inovação Tecnológica e Sistemas Elétricos Inteligentes;
  • Os leilões de energia elétrica e o papel da EPE e da ANEEL.

Um conjunto de temas que certamente não esgota o assunto, mas que permitirá maior esclarecimento e/ou aprofundamento aos leitores, principalmente àqueles não afeitos aos assuntos técnicos do setor de energia elétrica.


 

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Lineu Belico dos Reis
LINEU BELICO DOS REIS é engenheiro eletricista, doutor em engenharia elétrica e livre docente pela Escola Politécnica da Universidade de São Paulo, onde também é professor de Engenharia Elétrica e Engenharia Ambiental. É diretor da empresa de consultoria ALEPH – Serviços e Gestão de Energia. Atua nas áreas de energia, meio ambiente, desenvolvimento sustentável e infraestrutura, como consultor e como coordenador e docente de cursos multidisciplinares de especialização e extensão e educação à distância [USP, Poli/USP, FIA, IEE e outras instituições]. É autor dos livros Geração de Energia Elétrica (1003, 2011, 2017) e Matrizes Energéticas (2011) pela Editora Manole; organizador do livro Energia Elétrica para o desenvolvimento sustentável (2000, 2012) pela Edusp; organizador do livro Energia e Sustentabilidade (2016) e coautor dos livros Energia, recursos naturais e a prática do desenvolvimento sustentável (2005, 2009 e 2012) e Eficiência Energética em Edifícios (2012) da Editora Manole. É tradutor e coautor do livro Energia e Meio Ambiente (2011 e 2014) e consultor técnico da tradução do livro Introdução à Engenharia Ambiental (2011) da Cengage Learning. Consultor do setor energético brasileiro e internacional desde 1968 tem mais de cem artigos técnicos apresentados e publicados em congressos e eventos nacionais e internacionais e participação, em empresas de consultoria e concessionárias do setor elétrico brasileiro, no planejamento, execução e operação de diversos projetos relevantes.

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