Complementação Energética e Conservação de Energia

Ao final do tema anterior, inovação tecnológica e sistemas elétricos inteligentes, nas duas últimas linhas, foi resumida a futura missão dos sistemas elétricos inteligentes: vender serviços energéticos a mínimos custos (modicidade tarifária) e não a de vender máximos kWh.

A Complementação Energética, buscando a melhor utilização integrada das diversas formas de geração de energia elétrica, e a Conservação de Energia, buscando a redução dos kWh consumidos se aninham completamente nesta missão.

Seria possível apresentar aqui um grande conjunto de argumentos sobre este tema, mas pode-se optar por uma solução bem mais simples: encaminhar o leitor ao enfoque de um caso concreto. Apresentado, nesta mesma plataforma, em meu Blog PLANEJAMENTO ENERGÉTICO: RORAIMA, UM CASO EXEMPLAR, nos tópicos: Os Projetos de GD (Geração Distribuída) associada à Eficiência Energética; e O Sistema de Armazenamento de Energia Elétrica.

Que, no leilão de Energia Elétrica para Roraima, são os projetos associando geração distribuída e ações de eficiência energética para alimentação de pequenas cargas em sistemas isolados. Projetos que poderão envolver geração solar, eólica e a partir de biomassa. E que constituirão um projeto piloto de Leilão de Eficiência Energética, cujo conceito está em fase de Consulta Pública pela Agência Nacional de Energia Elétrica (ANEEL).

Planejamento, Leilões de Energia e o papel da EPE e da ANEEL

Alguns aspectos importantes que devem ser considerados ao se adentrar neste tema:

  • O Planejamento que orienta os leilões de energia é parte de um processo de Planejamento de Longo Prazo que utiliza técnicas de cenários, estabelece estratégias de longo prazo, assim como as táticas, que permitem ajustes intermediários quando a realidade medida (passado) se movimenta na faixa delimitada pelos cenários;

  • É, portanto, um processo dinâmico;

  • Um processo de planejamento efetivado por meio de leilões, para ter sucesso, não precisa buscar as alternativas técnicas “ótimas” para o sistema num determinado ponto do tempo, mas, sim, estabelecer alternativas com flexibilidade suficiente (“gordura”?) para que os agentes busquem, num cenário competitivo, suas soluções mais econômicas;

  • Alguns aspectos técnicos importantes que afetam esta flexibilidade são: melhor conhecimento das características físicas e socioambientais da região coberta pelo leilão; maior domínio das tecnologias envolvidas; possibilidade de acesso às tecnologias mais avançadas a preços competitivos.

Por outro lado, quanto ao papel a ser desempenhado pela EPE, empresa do governo, e pela ANEEL, Agência Reguladora, é importante lembrar que, pelo menos conceitualmente:

  • O papel básico das Agências Reguladoras, é representar o Estado, ao passo em que Empresa de Planejamento representa o governo; por isso os mandatos dos respectivos responsáveis não deve coincidir, sendo que no caso do Brasil são mandatos de 4 anos intercalados de 2 em 2 anos; assim, conceitualmente, as Agências Reguladoras fazem o papel de garantir continuidade durante a transição de governos, mantendo a estratégia de longo prazo; para isso, as Agências Reguladoras devem dispor de independência tanto política quanto econômica;

  • Assim como o planejamento, a regulação também é dinâmica, buscando se ajustar continuamente ao longo do tempo.

Daí resulta que, em determinados momentos é importante que a EPE e a ANEEL atuem conjuntamente para aperfeiçoar os leilões:

  • Incluindo, em maior ou menor grau, aspectos relacionados à Qualidade. O que, de certa forma, já tem ocorrido. Ou por meio de restrição de participação no leilão de empresas que não cumpriram suas metas. Ou adotando alternativas que restringem os grupos participantes em projetos estruturantes, como, por exemplo, nas transmissões das usinas do Rio Madeira e do Rio Xingú que utilizam a transmissão em Corrente Contínua;

  • Acelerando o processo de Inovação, como está ocorrendo com a Complementação Energética e Conservação de Energia no leilão de Roraima.

Ações conjuntas com graus diferenciados de Qualidade e Inovação que poderiam, coadjuvados por políticas adequadas de incentivo (linhas de financiamento, ênfase em parcerias internacionais, renúncias fiscais específicas, por exemplo), acelerar ainda mais o processo de Inovação no encaminhamento para o Sistema Inteligente. Considerando sempre as restrições de execução relacionadas à Operação (e Manutenção) do sistema elétrico.

Objetivando suscitar Reflexões e Debates sobre este assunto, apresenta-se a seguir, uma breve visão de alguns nichos que poderiam ser objetivados na área tecnológica.

  • Tecnologias de Controle e Supervisão:

Com relação a estas tecnologias, o cenário atual do apresenta ainda muito espaço para evolução, assim como uma significativa diferença entre os projetos mais recentes, cuja situação poderia ser considerada razoável, e os projetos antigos, cuja situação poderia ser considerada sofrível.

Nos projetos mais antigos, principalmente, há diversos equipamentos no final da vida útil (curva da bacia), e poucos incentivos para inovação, sendo muitos deles mal alocados.

  • Tecnologias de O&M:

O cenário, neste caso, apresenta menos disparidades entre projetos antigos e recentes, indicando que há ainda muito a fazer para se alcançar uma situação com alto grau de Tecnologias Preditivas de O&M que, associadas a Tecnologias de Controle e Supervisão irão orientar a evolução do sistema nos rumos da rede inteligente.

  • Tecnologias de Equipamentos:

É onde ainda existe uma grande lacuna tecnológica, em todas as áreas componentes do sistema elétrico: Geração, Transmissão e Distribuição. Representa um nicho tão amplo e desafiador, que será tema específico de uma coluna mais adiante.

Finalizando, é importante ressaltar que o atual cenário institucional do país, no qual estão sendo discutidas e decididas significativas alterações de ordem política, regulatória e fiscal, dentre outras, irá impactar significativamente o andamento das questões tratadas nas três partes desta coluna.

Assim, também planejo um retorno ao tema quando o cenário estiver mais desanuviado, e os assuntos aqui abordados, assim como outros que poderão aflorar, estiverem estabelecidos.


 

 

 

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Lineu Belico dos Reis
LINEU BELICO DOS REIS é engenheiro eletricista, doutor em engenharia elétrica e livre docente pela Escola Politécnica da Universidade de São Paulo, onde também é professor de Engenharia Elétrica e Engenharia Ambiental. É diretor da empresa de consultoria ALEPH – Serviços e Gestão de Energia. Atua nas áreas de energia, meio ambiente, desenvolvimento sustentável e infraestrutura, como consultor e como coordenador e docente de cursos multidisciplinares de especialização e extensão e educação à distância [USP, Poli/USP, FIA, IEE e outras instituições]. É autor dos livros Geração de Energia Elétrica (1003, 2011, 2017) e Matrizes Energéticas (2011) pela Editora Manole; organizador do livro Energia Elétrica para o desenvolvimento sustentável (2000, 2012) pela Edusp; organizador do livro Energia e Sustentabilidade (2016) e coautor dos livros Energia, recursos naturais e a prática do desenvolvimento sustentável (2005, 2009 e 2012) e Eficiência Energética em Edifícios (2012) da Editora Manole. É tradutor e coautor do livro Energia e Meio Ambiente (2011 e 2014) e consultor técnico da tradução do livro Introdução à Engenharia Ambiental (2011) da Cengage Learning. Consultor do setor energético brasileiro e internacional desde 1968 tem mais de cem artigos técnicos apresentados e publicados em congressos e eventos nacionais e internacionais e participação, em empresas de consultoria e concessionárias do setor elétrico brasileiro, no planejamento, execução e operação de diversos projetos relevantes.

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