Elbia Gannoum*

2019 chega com uma nova possibilidade para o setor elétrico discutir algo profundamente necessário: uma ampla e profunda reforma. Este é um tema que vem sendo debatido, há muito tempo, em inúmeras feiras, congressos, palestras, grupos de trabalho e tantos outros espaços de debates do setor. A discussão se desgastou de tal forma que há um sentimento de palavras vazias e que todos sabem de tudo. Começar a falar de reforma do setor parece uma “deixa” quase certa para que seu interlocutor assuma a postura de quem já conhece tudo sobre o assunto e que só deve manter seu ponto de vista na discussão.

Muitos argumentam que a reforma tem sido feita sim, em partes, resolvendo os problemas com uma portaria aqui e outra acolá, por meio de emendas, medidas provisórias. São os puxadinhos do setor elétrico. E ele tem vários, como sabemos. O que precisamos é de outra ordem. Precisamos entrar na discussão da reforma do setor abandonando nossos automatismos do pensar e ousando questionar o que poderia ser feito de maneira diferente. Aliás, seria interessante parar de utilizar a palavra “reforma” e passar a enfrentar isso como uma “reestruturação de bases”. Reforma pode ter puxadinho. Reestruturação de bases não.

Uma reestruturação exige um debate qualificado e sério, uma confrontação de ideias com um esforço coletivo em torno de um objetivo comum. No caso do setor elétrico, acreditamos que esse objetivo em comum é a necessidade de termos uma energia que chegue ao consumidor sem tantos penduricalhos e subsídios. Um setor preparado para acolher a enorme quantidade de mudanças tecnológicas de forma integrada.

O pensar integrado que essa reestruturação de bases exigirá significa, por exemplo, que o setor elétrico entenda que é necessário estar muito mais unido com o setor energético como um todo. O crescimento da demanda por eletricidade para abastecer os carros e o crescimento do gás, cuja regulação precisa de ajustes, e suas variadas possibilidades são apenas dois dos motivos que justificam a necessidade de um trabalho conjunto.

Outro ponto é que a matriz energética, ainda que já seja bastante renovável, precisa desenvolver muito mais as chamadas renováveis de baixo impacto, como eólica e solar. Se olharmos apenas o setor elétrico podemos ter a falsa impressão de estarmos muito tranquilos em relação às metas do Acordo do Clima, porque, afinal de contas, temos uma matriz elétrica altamente renovável e com a eólica ampliando significativamente sua participação na geração elétrica. Quando olhamos a matriz energética como um todo podemos ver que a situação é diferente e ainda existe muito trabalho pela frente para expandir as renováveis.

Pensar integrado também significa planejar com mais segurança. Uma outra discussão recorrente no setor é o chamado pêndulo da sobra e da escassez, somado à falta de planejamento. Uma busca rápida em históricos de notícias mostra a situação: em pouco tempo, vamos de manchetes sobre possibilidade de racionamento para situação de cancelamento de leilão porque temos sobra de energia.

O setor elétrico tem mentes brilhantes e, certamente, tivemos muitos acertos ao longo do tempo. Não se trata, portanto, de afirmar que é necessário reconstruir tudo do zero, mas é o caso, sim, de argumentar que é preciso adotar uma nova postura olhando o setor de forma mais integrada. O desafio não é pequeno. Precisamos encontrar maneiras de promover diálogos de profissionais com visões diversas, mas que estejam todos de acordo em direcionar suas energias em nome de um bem comum, que é o setor energético do futuro.

*Presidente da ABEEólica

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