Há tempos venho adiando esse post pois gostaria de ouvir, analisar, interpretar e muitas vezes esfregar os olhos para muitas coisas que ando lendo sobre a proposta de alguns candidatos.

thommas68 / Pixabay

Depois de 2014, até achávamos que a veia populista iria dar um tempo, mas a promessa de crédito barato por decisão do governo, com a mãozinha do Banco do Brasil (BB) e da Caixa Econômica Federal (CEF), expansionismo fiscal sem restrições, com o abandono do teto dos gastos parece ganhar corpo e votos da população.

Como o jornalista Rolf Kantz do jornal “O Estado de São Paulo” argumenta: “confundem políticas keynesianas anticíclicas necessárias em certos momentos, com a mais chapada e grosseira irresponsabilidade fiscal” . Logo a seguir procuro dar minha opinião sobre algumas propostas que tenho lido e ouvido. Muitas eu preferiria não ter ouvido, muito menos lido. Confesso.

Renegociação de dívidas do SPC | Alguns presidenciáveis já gostaram da notícia e estão oferecendo essa possibilidade, caso eleito. Credito fácil renegociado a uma taxa de juros bem mais baixa e a um prazo maior.

Se assumirmos que os bancos privados não aceitem fazer todas essas negociações, utilizarão o BB e a CEF para tal, entenda-se Tesouro Nacional, aliás, adoro quando o governo me chama de tesouro, para cobrir eventuais perdas com mais dinheiro público, até para eventualmente alocar mais capital nesses bancos. Sem falar no efeito “Refis” que tal política pode suscitar no comportamento de futuros devedores.

Ora, se fui perdoado uma vez, porque não seria novamente?

Assim como o Refis beneficiou por várias vezes várias empresas como forma de impulsionar a economia, o que garante que o os agentes econômicos navegando em uma espécie de risco moral não serão agraciados por mais um “feirão do SPC”?

Notadamente percebe-se o erro crasso de diagnóstico da situação econômica. Ou seja, voltaremos a crescer novamente com mais crédito fácil e abundante no curto prazo, sem endereçar nossos gargalos de infraestrutura e educação, leia-se, a nossa produtividade total dos fatores.

No curto prazo, a população até aproveitará momentaneamente o impacto etílico da festa consumista, mas ouso dizer com o coração apertado, que terá de devolver tudo que comprou, assim que batermos na nossa capacidade produtiva. Já vimos esse filme antes!

Renegociação da dívida pública | Por outro lado, ainda existem alguns candidatos que julgam poder resolver o problema da nossa dinâmica explosiva da dívida pública. Como? Novamente com mais intervencionismo, afinal isso sempre deu certo por aqui. Usando e abusando de uma desonestidade atroz dizem que os mais prejudicados em uma “renegociação da dívida pública” seriam os bancos, ou como gostam de dizer, a “Av. Faria Lima”.

Não sei vocês, mas eu não moro na Faria Lima e tenho recursos aplicados em fundo DI e outros que são obrigados a comprarem esses mesmos títulos da dívida pública. Portanto, quem vai pagar o pato, desculpa FIESP, são os maiores financiadores do governo, a população mesmo.

Mas mesmo assumindo essa “renegociação” da dívida pública, como fica a trajetória das novas obrigações do governo dali para frente? Vai continuar aumentando e o governo lançará novos títulos para EU comprar, mesmo depois da “renegociação”? Comigo, não! Não empresto mais para o governo, a não ser que ele me pague mais juros.

Mas e se o governo no ímpeto pseudo estadista não quiser pagar pelas gracinhas advindas da “renegociação” da dívida pública anterior? Como fará para pagar suas contas? Aumentando impostos não dá, pois, dado o nosso nível de carga tributária isso já seria contraproducente e aliás vamos parar com essa bobagem de tributar mais o lucro e as grandes fortunas.

Se tributarem mais pesadamente o lucro, as empresas terão menos recursos para investir e aumentar a capacidade produtiva da economia e se tributarem as grandes fortunas, qualquer menção disso levará uma saída de capitais como forma de se livrar dessa nova tributação, aliás malditos lucros e riquezas.

Repostas talvez seja simples, mas dolorosa. Com emissão monetária, ou seja, mais inflação. O que não deixa de ser mais um calote, pois corrói o poder aquisitivo da população, principalmente os mais pobres.

Teto dos gastos | Não sei o que é pior, defender o fim do teto dos gastos que limita por dez anos o crescimento das despesas primárias da União, indexado a inflação ou as explicações para seu abandono. Esquecem que o governo não tem mais dinheiro e que em 2019 o nosso déficit primário será de R$159bn ou 2.3% do PIB.

Mas como arcaremos com as crescente necessidades de gastos com saúde, educação, previdência? Ora o teto de gastos permite que o Executivo e ou o Legislativo escolham como querem alocar seu orçamento.

Se não quiser endereçar a bomba relógio da situação da previdência, que tire de outras rubricas. Abandonar simplesmente o teto de gastos, significa que o governo poderá gastar mais a vontade ainda, fazendo com que o risco da dívida pública piore e que os financiadores dessa dívida pública acabem por exigir maiores retornos ou o governo poderá seguir o caminho mais simples e pedir para o BACEN imprimir moeda e voltamos à década de 80.

Mesmo impacto da proposta anterior.

Depreciação cambial como forma de impulsionar a indústria | E quanto ao câmbio? Alguns defendem em deixá-lo bem depreciado como forma de aumentar a competitividade da indústria. Ou seja, vamos com um samba de uma nota só do antigo ministro da Fazenda Bresser-Pereira.

Mas como deixaremos o câmbio depreciar? E se essa depreciação suscitar pressões inflacionárias? Poderá a autoridade monetária agir prontamente para controlar os impactos inflacionários dessa depreciação?

Depende, veja logo a seguir. Infelizmente o rol de besteirol não para.

Duplo mandato do Banco Central (BACEN) | O Bacen terá de perseguir dois objetivos ou duplo mandato: inflação e maior nível de empregos, como o banco central dos EUA, o Federal Reserve (FED). Aliás alguns candidatos adoram isso, mas não sabem que o que determina em um primeiro plano a política monetária dos EUA é a inflação, sim. Mas aqui, essa coisa de duplo mandato já poderia ser interpretada como uma futura política monetária mais leniente com a inflação, embaralhando e porque não dizer emporcalhando a ancoragem das expectativas inflacionárias pelos agentes econômicos e formadores de preços.

Essas e outras bobagens não parecem um enredo de um samba de uma nota só, mas um samba de um neurônio só, que acaba sendo atraído por promessas facilmente desmontadas por vestibulandos de economia. Mas pelo jeito em eleição vale prometer tudo, mesmo que depois dê tudo errado. Aliás ainda perguntam porque o câmbio bateu R$4.00

https://opiniao.estadao.com.br/noticias/geral,ideias-desastrosas-como-programas-de-governo,70002472779

 

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Roberto Dumas
Mais de 30 anos de experiência no mercado financeiro. Trabalhou em instituições renomadas (UBS, Citigroup, Lloyds Bank e Itaú BBA). De 2007 a 2011 representou o banco Itaú BBA em Shanghai. Também atuou no banco dos BRICS em Shanghai (New Development Bank) na área de operações estruturadas e risco de crédito. Dumas é Mestre em Economia pela Universidade de Birmingham na Inglaterra. Mestre em Economia Chinesa pela Universidade de Fudan (China). Graduado e pós-graduado em administração e economia de empresas pela FGV e Chartered Financial Analyst conferido pelo CFA Institute (USA). Professor de Economia Internacional e Economia Chinesa do INSPER, IBMEC São Paulo, Fundação Instituto de Administração (FIA-USP) e Saint Paul Business School. Professor Convidado da China Europe International Business School (CEIBS) e Fudan University (China).

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