Privatização da Amazonas: Sonho ou Realidade?

Mais uma capítulo da privatização da Eletrobras foi escrito no dia de ontem (10/12), com a venda da 5ª distribuidora de energia controlada pelo grupo. Desta vez, a estrela do dia foi a Amazonas Energia, arrematada pelo consórcio Oliveira Energia/Atem, que ofereceu um índice de deságio combinado de 0%, ou seja, “preço mínimo”.

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De acordo com as regras estabelecidas para este leilão de privatização, seria declarado vencedor o investidor que oferecesse o maior índice combinado de deságio sobre a flexibilização das perdas não técnicas e também sobre os recursos da Reserva Global de Reversão (RGR) que a Amazonas Energia terá direito a receber na próxima revisão tarifária. Neste modelo, quanto maior o deságio, maior o benefício para o consumidor, uma vez que a tarifa de fornecimento futura da distribuidora contaria com este “redutor”.

O modelo adotado no leilão de ontem, seguiu a metodologia da venda das outras quatro distribuidoras da Eletrobras privatizadas ao longo de 2018: Cepisa (piauí), Eletroacre (Acre), Ceron (Rondônia) e Boa Vista (Roraima).

Somente quem já teve a “doce” oportunidade de fazer uma avaliação econômico-financeira das distribuidoras da Eletrobras e, com isso, ver a dura e fria realidade dos seus números, sabe a importância da alienação destes ativos. Temos que destacar e enaltecer o papel do Wilson Ferreira Junior (CEO Eletrobras) neste processo, que para muitos tratava-se de uma missão impossível, com um roteiro “kafkaniano”.

Talvez o maior exemplo desta “odisseia” seja a própria Amazonas Energia. A empresa encerrou o exercício de 2016 (Balanço base utilizado pelo BNDES para a avaliação do ativo), com uma estrutura de capital bem desequilibrada, contabilizando no passivo de curto prazo R$6,3 bilhões e no longo prazo inimagináveis R$14,2 bilhões. Tudo isso tendo como pano de fundo um patrimônio líquido negativo da ordem de R$9,3 bilhões.

E olha que estamos citando apenas as contas patrimoniais e nem entramos na geração de caixa da empresa, que como todos podem imaginar era negativa, muito negativa.

Diante disto, qual a saída? Tarifa & Gestão. 

Uma vez decidido pela privatização – brava decisão do governo Temer -, a saída seria sensibilizar a Aneel da real necessidade de reavaliar os parâmetros tarifários da Amazonas Energia, o que ocorreu em 2017 com a publicação de um decreto flexibilizando os parâmetros regulatórios da concessionárias incluídas no pacote de privatização.

O resultado efetivo disto foi a elevação dos limites de perdas não técnicas (furtos de energia), além do aumento das despesas operacionais (PMSO – Pessoal, Material, Serviços e Outros) cobertas pela tarifa. A elevação destes dois itens, permitiu um reequilíbrio na geração de caixa da empresa, até então deficitária.

“Last but not least”, a Amazonas teve garantido o direito de ressarcimento de R$1,6 bilhão através dos recursos antecipados da RGR (Reserva Global de Reversão) a ser incluído na próxima revisão tarifária.

Quanto a gestão, isso ficará por conta do novo controlador, agora privado, que certamente terá muito menos restrições para implementar um plano de reestruturação que maximize não apenas a operação, mas principalmente que reduza o tamanho da estrutura operacional, tornando-a mais enxuta e eficiente.

Isto ficará para os próximos capítulos.


 

 

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Marcos Severine
Marcos Severine atuou ao longo dos últimos 25 anos no mercado financeiro em instituições de primeira linha (JPMorgan, ItaúBBA, Société Générale e Intesa BCI). Embora tenha atuado por “bons e longos” anos nas áreas de Investment Bank e Project Finance, destacou-se verdadeiramente como analista sell-side, liderando a cobertura do Setor de Energia na América Latina. Ao longo desta jornada foi diversas vezes eleito top-ranked analyst pela revista especializada “Institutional Investor” (LATAM e Brasil), através de votação realizada junto a investidores institucionais locais e estrangeiros. Severine participou de todas as ofertas de ações do setor elétrico brasileiro realizado ao longo dos últimos 20 anos, acumulando uma grande experiência e vivência, mas principalmente “histórias”, que ajudou a construir e a contar para uma seleta gama de investidores, interessados em multiplicar o seu capital, espalhados nos quatro cantos do mundo. Após milhares de quilômetros percorridos e dezenas de países visitados em intermináveis roadshows - muitas vezes três países em um mesmo dia - contando suas “histórias de investimento” para investidores interessados ou não (acreditem não foi fácil vender o Brasil e o setor elétrico), Severine decidiu se aposentar do mundo “mágico” do sell-side no início de 2016 e partir para novas aventuras.

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