Era uma vez um personagem, que sem “abusar” dos contos infanto-juvenis se autodenominava Poliana Brasilis. Acreditava na governança corporativa apolítica da Petrobras e no esquecimento das lições aprendidas com os “fiscais do Sarney”, quanto ao controle de preços. Acreditava também, piamente, que aquelas ultrapassadas forças de mercado de demanda e oferta não mais se aplicavam em um mundo agora Psolista. E que a tabela de frete mínimo, discutida em um cenário barulhento, porém respeitoso, semelhante a uma sessão do parlamento britânico, seria imposta, mesmo que bem acima do preço de equilíbrio.

Confiava, candidamente, que ao final, todos ficariam contentes e satisfeitos e que o problema maior era o aumento do diesel e não o crescimento de mais de 40% da frota de caminhões, pronto para atender a um crescimento econômico do país de 9% em dois anos, apesar de termos caído 9% no mesmo período.

Tinha também plena convicção que ao final tudo daria certo, pois se ainda “não estava um mar de rosas, era porque a história não havia acabado”. Como uma frase inspiradora de algum guru midiático, que faz sucesso em livrarias de aeroporto, e digno de receber uma honraria pela “Academia Brasileira de Letras”.

Tinha certeza também, que essa polarização eleitoral, apenas estimularia um debate sério e bem menos populista entre os candidatos em destaque, buscando soluções honestas intelectualmente para o crescimento da dívida pública explosiva, sem culpar os personagens cafonas de sempre. Sabia que alguém finalmente perceberia que nossas taxas de juros são tão altas, porque o nosso risco para financiar a dívida pública parecia crescer. E que apesar de cômico, ouviria atentamente a proposta “vaudevilliana” de eloquentes economistas e artistas insistentes em erros passados, defenderem a eliminação do teto de gastos da dívida pública para soltar as “amarras do crescimento”. Afinal após o crescimento estelar de 2014, 2015 e 2016, só paramos de crescer por causa desse teto de gastos yankee imposto pelo FMI, CIA e pela Kaos, inimiga do Agente 86 (versão década de 60/70).

Como se não bastasse, nosso personagem ainda tinha certeza que apesar da crise da Argentina e da ajuda do FMI, los hermanos cresceriam no ano que vem. Lograriam colocar suas contas públicas em ordem, acalmariam o povo argentino, reelegendo Macri, pondo fim a bobagem Kischnerista, ajudando assim nossas exportações de veículos para o país vizinho, além de impulsionar nossa indústria manufatureira.

Como ainda não acreditar nas palavras de Trump: “America First”. Ora, o Brasil fica na América. América do Sul, é verdade, mas América. Essa política protecionista do presidente dos EUA, aliado a sua política fiscal expansionista inflacionária só tenderia a beneficiar nosso país. Mesmo que a nossa moeda rompesse os R$4,00, suscitando pressões inflacionarias, colocando o BACEN on hold ou possibilitando ainda subidas nas taxas de juros. Pessimistas impatrióticos! Gritaria nosso paladino da confiança.

Essa versão antagônica tupiniquim do nosso Curupira, parece não parar de crer no melhor. Mesmo que eventuais, mas “improváveis” intempéries no curto prazo, os nossos próximos anos seriam de enormes avanços em investimentos em infraestrutura. Somente 100% (3.2% do PIB) a mais do que investimos em 2016 (1.6% do PIB) já daria para limpar a ferrugem ou repor a depreciação do nosso estoque de investimentos em infraestrutura.

Mas se pensarmos positivamente, conseguiremos chegar nesse número. Pensaria nosso personagem, já quase fora da “casinha”.

Tirando noves fora, e arredondando um pouquinho essa conta, chegaríamos facilmente em investimentos em infraestrutura da ordem de 5.5% do PIB ou algo como R$250 bilhões todo ano até 2030. Apesar de termos investido somente R$160bn em 2016.

Pareceria tudo resolvido até 2030. Apenas um perrengue no curto prazo aqui e acolá e tudo seria resolvido após a Copa ou após um bom banho de mar no dia 31 de dezembro pulando as sete ondas, para limpar os maus agouros do passado. Se o problema no longo prazo é a produtividade total dos fatores, entenda-se no nosso caso, investimento, educação e abertura comercial, já podemos comemorar o 7 a 1 para nós. Ou talvez seria de bom tom aconselhar o nosso personagem a dobrar a dose de seus medicamentos e diminuir a sua produção de serotonina e dopamina.


 

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Roberto Dumas
Mais de 30 anos de experiência no mercado financeiro. Trabalhou em instituições renomadas (UBS, Citigroup, Lloyds Bank e Itaú BBA). De 2007 a 2011 representou o banco Itaú BBA em Shanghai. Também atuou no banco dos BRICS em Shanghai (New Development Bank) na área de operações estruturadas e risco de crédito. Dumas é Mestre em Economia pela Universidade de Birmingham na Inglaterra. Mestre em Economia Chinesa pela Universidade de Fudan (China). Graduado e pós-graduado em administração e economia de empresas pela FGV e Chartered Financial Analyst conferido pelo CFA Institute (USA). Professor de Economia Internacional e Economia Chinesa do INSPER, IBMEC São Paulo, Fundação Instituto de Administração (FIA-USP) e Saint Paul Business School. Professor Convidado da China Europe International Business School (CEIBS) e Fudan University (China).

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