É consenso entre economistas estimar que a paralisação de maio deve ter impacto significativo sobre as projeções de crescimento do PIB. As estimativas atuais indicam uma redução na estimativa de crescimento para 2018 que varia de -0,2% a -0,5% do PIB, levando a uma queda da estimativa de crescimento do PIB no ano para algo em torno de +2% (por exemplo, vide “PIB fraco e greve de caminhoneiros abatem cálculos para economia”, O Estado de São Paulo, 30/05/2018).

É possível que essa estimativa de crescimento limitado, porém significativo (2% seria a mais elevada taxa de crescimento do PIB desde 2013) seja otimista ao não considerar alguns dados sobre o impacto da paralisação de maio. Esse seria um exemplo da diferença entre “Indicadores Antecedentes”, cujo objetivo é antecipar a direção da economia brasileira no curto prazo, e “indicadores coincidentes”, que medem as condições econômicas atuais e a intensidade da atividade econômica em bases mensais. O consenso sobre a taxa de crescimento esperado do PIB é um exemplo de “indicador antecedente” muito utilizado. É importante perceber que a estimativa do crescimento tem que ser consistente com o PIB medido no 1º Trimestre, e com as informações que estimamos sobre o que está ocorrendo com o PIB durante o 2º Trimeste (cujos valores finais somente serão conhecidos apenas daqui a alguns meses). Por exemplo, no caso da greve, mais do que estimativas agregadas da redução da produção, a contabilização direta das perdas pode revelar com mais exatidão a magnitude da queda:

“Segundo projeções do Instituto Brasileiro de Economia (Ibre) da Fundação Getulio Vargas, a greve vai provocar recuo de cerca de 0,3% na previsão inicial de crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) deste ano, que seria de 2,3%. De imediato, os setores que divulgaram os seus números exibem perdas estimadas entre R$ 75 bilhões e R$ 100 bilhões, com a fatura mais pesada lançada sobre o agronegócio, o mesmo que protagonizou o maior impacto positivo sobre o PIB de 2017. Isto porque neste setor houve quebra da cadeia produtiva (…) Ato contínuo, o agronegócio foi abatido em algo próximo a R$ 14 bilhões” (“Brasil começa a pagar hoje a conta da greve dos caminhoneiros”, O Estado de Minas, 04/06/2018)

O PIB do 1º Trimeste de 2018 foi de R$ 1,6 trilhão. Portanto, apenas a estimativa inferior das perdas decorrentes da paralisação indicadas pelos setores, R$ 75 bilhões, já equivale a 4,7% do PIB trimestral. Tendo em vista que a estimativa anterior à greve era de um crescimento reduzido, é muito difícil justificar qualquer projeção não-negativa para crescimento do PIB do 2º Trimestre de 2018. Lembrando que no 1º trimestre de 2018 o PIB cresceu 0,4%, frente ao 4º trimestre de 2017, é muito difícil justificar qualquer projeção positiva para crescimento do PIB no 1º semestre de 2018. Mesmo que o “PIB semestral” não seja uma variável relevante no debate econômico, vale lembrar que o PIB do 1º Semestre representa praticamente metade do PIB anual (oscilando entre 47% e 49% durante os últimos 20 anos). Portanto, para atingir 1,5% a 2% de crescimento anual, será necessário um crescimento de 3% a 4% no 2º Semestre, taxas maiores do que as projeções do início do ano – apesar de todos indicadores recentes e novas informações mostrarem uma deterioração do cenário econômico.

O desempenho final da economia brasileira durante o ano de 2018 vai depender da evolução do cenário internacional (e do conturbado cenário nacional) e das decisões e sinalizações nos próximos meses do governo brasileiro e sua nova equipe econômica. Não obstante, eventos recentes e o desempenho dos primeiros meses indicam que projeções de crescimento de mais do que 1,5% para o PIB do ano de 2018 são excessivamente otimistas.


 

 

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