Há discussões acaloradas nas redes sociais, na mídia tradicional e até nas rodas de bar sobre a saída de Pedro Parente da Petrobras, evidentemente relacionando também a interferência governamental na política de preços da empresa.

Façamos antes uma digressão para 2001, a época do racionamento de energia elétrica. Desde o Código de Águas, editado em 1934 e tardiamente assinado, a matriz hidroelétrica brasileira patinou até que o Governo Militar e seu bolso sem fundos investiu em geração e nas grandes usinas hidrelétricas.

Desde meados dos anos 80, contudo, houve pouco investimento, em parte devido as infinitas crises de endividamento do país e a falta de financiamento Internacional disposto a correr riscos por estas bandas. Com o advento do Plano Real a inflação foi finalmente debelada e uma onda de crescimento, consumo de bens duráveis e não duráveis teve início, o que também impulsionou o consumo de energia elétrica para níveis mais próximos à capacidade de geração, transmissão e distribuição ora instalados.

Chegou o ano de 2001 e com ele uma temporada de chuvas fracas, hidrologia desfavorável à recomposição dos reservatórios, tudo isso agravado pela falta de linhas de transmissão e de um sistema plenamente interligado.

Não houve saída, foi decretado o racionamento de energia elétrica, que impactou seriamente o então governo FHC. À frente da coordenação do racionamento estava Pedro Parente, que com eficiência e muita competência conduziu e organizou esse difícil processo, ele foi o profissional certo em um momento de uma séria crise.

Culpá-lo pelo racionamento e pelas consequências deste soaria ridículo, o problema foi construído por décadas de falta de investimentos e uma matriz aquém do necessário, não foi Pedro Parente quem apertou o gatilho do racionamento, ele o conduziu porque era necessário que funcionasse da melhor forma possível até a crise fosse resolvida. Do racionamento emergiram soluções estruturais importantes, como o sistema interligado, o mercado livre de energia, a eficiência energética e uma formação de preços mais adequada aos custos estruturantes do setor.

Finda essa digressão, olhemos agora a situação da Petrobrás.

Depois de usada como ferramenta de controle inflacionário via torniquete nos preços, a empresa mergulhou em sua mais profunda crise, perdeu 40 bilhões de dólares em valor de mercado e ceifou seus acionistas impiedosamente, perdeu credibilidade e dessa forma deixou de contar com fontes de financiamento, teve um balanço publicado com mais de um ano de atraso e foi obrigada a contabilizar custos de corrupção em seus livros, teve presidentes envolvidos em processos de corrupção da Lava Jato e um deles encontra-se preso.

Sob esse dificílimo cenário surge Pedro Parente, mais uma vez tomando as rédeas da solução de uma gravíssima crise. Grupos de interesse, seguramente pouco comprometidos com uma recuperação estrutural do país clamavam irresponsavelmente pela saída de Parente da Petrobras, culpando-o por ser a causa do aumento dos custos dos combustíveis em plena era de alta de preços internacionais do petróleo e valorização do dólar.

A Petrobrás perdeu capacidade de investimento em refino por queimar velozmente seu caixa enquanto era usada como instrumento de política inflacionaria pela presidente Dilma Rousseff. Culpar Pedro Parente por isso é como culpa-lo por ter havido racionamento em 2001.

Pedro Parente era o homem certo numa crise gravíssima, estava sendo controlada com sua competência e capacidade de trabalho sob pressão.Ele não cedeu à interferência e deixou a empresa. Nos resta lamentar pelo clamor daqueles que fizeram tão superficial análise do imbróglio da contenção de preços imposta pelos grevistas.

Novamente sombra de um Brasil velho, que teima em dar errado volta a arena da Petrobras, não havia solução fácil para o pleito dos grevistas, mas a saída de seu competente presidente e a clara interferência na política de preços poderá criar um fim bem menos positivo do que o racionamento de 2001.

Miremos a quebra de monopólios, a abertura do mercado e boa e eficiente competição como uma miragem a ser perseguida. Que Ivan Monteiro seja capaz de conduzir a empresa com firmeza e tenacidade. O futuro do Brasil agradece.


 

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