Além de solucioná-las, queremos aprender com toda crise. Claro que a História e a Literatura nos ajudam a pensar sobre crises e guerras. Não nos dizem como cada uma terminará. Apenas que não são diferentes de outras, já ocorridas aqui e pelo mundo. Que a Natureza sempre joga algum papel (nessa, o fim do Ciclo de Commodities). E que o desfecho já está desenhado! Embora a História só nos permita ler esse capítulo do seu livro quando ele chega.
Vou rapidamente a três temas. (1) Voltemos à guerra franco-russa, narrada por Tolstoy em “Guerra e Paz”. (2) Outro livro de Tolstoy visita um quadro diferente, ainda mais parecido com o Brasil de hoje. (3) E vale lembrar que 1919 foi  o campeão do Otimismo no século 20, e que o Brasil estava mega-otimista no começo deste século.

  • A guerra que Tolstoy relata em “Guerra e Paz”
  • As lições de “O Senhor e o Servo”
  • O ano de 1919 ainda é o “Ano Mundial do Otimismo”
  • A guerra que Tolstoy relata em “Guerra e Paz”

Tolstoy sempre se recusou a aceitar que “Война и мир” (“Guerra e Paz”) fosse um romance, um poema, ou sequer uma crônica histórica. Tratou-o sempre como um registro histórico da invasão napoleônica, com uma riqueza de detalhes que ele mesmo pesquisou. O foco são cinco famílias que Tolstoy criou, semelhantes às famílias aristocráticas russas daquela época: os Bezukhovs, Bolkonskys, Rostovs, Kuragins e Drubetskoys.

O livro cita cerca de 150 figuras reais. Inclusive Napoleão e seus aliados, o czar Alexander, e militares dos dois lados. Descreve fatos ocorridos entre 1805 e 1820. Ou seja, 45-60 anos antes do próprio livro.

A própria Encyclopædia Britannica sugere: talvez nenhuma novela inglesa tenha alcançado a universalidade literária de “Guerra e Paz”.

Tolstoy sempre preferiu dizer que, em vez ser um romance, o livro faz discussões filosóficas e relata a guerra. Estaria longe da boa Literatura que já crescia na Rússia! “Anna Karenina foi meu primeiro romance”.

A versão completa em russo saiu em 1869. Pesquisas sugerem que, em todo o mundo, só a Bíblia e o Alcorão são mais lidos do que “Guerra e Paz”, que se estima que também seja o mais lido duas vezes. Afinal, é fácil perder detalhes na primeira leitura de livro tão longo.

Um trecho do livro

Eis duas perguntas que o livro sugere: 

  • Desde sempre, no mundo inteiro, por que guerras e crises econômicas um dia terminam, e segue-se um novo ciclo de paz, prosperidade, ou ambos?
  • Porque investigações costumam se encerrar antes de punir todos envolvidos? E a inclinação criminal sempre segue viva em algumas empresas, governos e políticos?

Essas perguntas, tão atuais no Brasil de hoje, lembram um trecho clássico do livro, que busca na maçã de Newton lições sobre a Humanidade. Breve trecho que nos ajuda a refletir sobre governos, crises, o mundo humano, e o Brasil de hoje. Aqui está:

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 O rei[1] é escravo da história.

[1] Se escrevesse hoje, talvez Tolstoy dissesse “governante” e não “rei”. Afinal, há muitos presidentes e primeiros-ministros.

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A história, ou seja, a vida inconsciente, comum, a vida de colmeia da humanidade, usa todos os minutos da vida do rei para si mesma, como um instrumento para alcançar seus objetivos.

Mais do que nunca, agora em 1812, pareceu a Napoleão que dependia dele versé ou non versé le sang de son peuple[2] (como escreveu em sua última carta para o czar Alexandre), mas ele jamais esteve mais sujeito a leis inexoráveis. Que o obrigavam a fazer, para a obra comum, para a história, aquilo que tinha de se cumprir (embora parecesse obedecer a seu próprio arbítrio).

Pessoas do Ocidente descolaram-se para o Oriente a fim de se matarem umas às outras. E, segundo a lei da coincidência das causas, milhares de causas pequenas se concatenaram por si mesmas e coincidiram com esse acontecimento para que houvesse tal movimento e para que houvesse a guerra: as acusações de desobediência ao Sistema Continental, o duque de Oldenburg, o movimento de tropas na Prússia, cuja finalidade (assim pareceu a Napoleão) era apenas conseguir uma paz armada,[3] o amor e o hábito da guerra que tinha o imperador francês, em concordância com a índole do seu povo, e a paixão pela grandiosidade dos preparativos. E as despesas com os preparativos, e a necessidade de obter lucros que pagassem tais despesas. E as intoxicantes honrarias que recebera em Dresden,[4] e as negociações diplomáticas que, aos olhos dos contemporâneos, foram conduzidas com o sincero desejo de alcançar a paz. Mas apenas espicaçaram o orgulho de ambas as partes. E milhões e milhões de outras causas, que se concatenaram para realizar o acontecimento e coincidiram com eles.

Quando a maçã fica madura e cai – por que cai? Porque a gravidade a atrai para a terra, ou porque sua haste está murcha, ou porque ela secou no sol, ficou muito pesada, o vento a derrubou, ou porque um menino que está embaixo da árvore quer comer a maçã?

Nada é causa. Tudo isso é apenas a coincidência das condições sob as quais ocorre qualquer acontecimento vivo, orgânico, elementar. E o botânico que acha que a maçã cai porque a celulose se decompõe, e coisas semelhantes, terá tanta razão, e tanta falta de razão, quanto o menino que está embaixo da árvore e diz que a maçã caiu porque ele queria comê-la e rezou para ela cair. Assim também terá razão e não terá razão quem dizer que Napoleão avançou para Moscou porque quis fazer isso, e que foi destruído porque Alexandre quis que o destruíssem. Assim também terá razão e não terá razão quem disser que uma montanha de milhões de pud [5] foi solapada e desmoronou porque um último operário bateu pela última vez debaixo dela com sua picareta.

 

Nos acontecimentos históricos, os assim chamados grandes homens não passam de rótulos com que se denominam os acontecimentos e, assim com os rótulos têm com os acontecimentos propriamente ditos menos relação do que qualquer outra coisa. 

Todos os seus atos, que a eles mesmos parecem voluntários, no sentido histórico são involuntários, estão ligados a todo o movimento da história e determinados desde sempre. 

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Esses parágrafos de Tolstoy fazem refletir que grandes homens é apenas um rótulos para pessoas e fatos, que criam, ampliam ou mitigam crises. Na verdade, o rumo do mundo resulta de fatores involuntários, ligados à história e determinados por vários fatores.

É cada vez mais real essa “Ordem Mundial”, como Henry Kissinger indica em seu livro: “Nunca houve uma verdadeira ordem mundial. Por grande parte da história, toda civilização se viu como centro do mundo e considerou seus valores relevantes para todos. Hoje, as relações seguem uma base global, e diferentes conceitos históricos vão se encontrando. Cada região participa de questões políticas das outras de forma quase instantânea. Contudo, não há consenso sobre regras e limites desse processo, ou sua direção principal. O resultado é uma crescente tensão”.

Quem causa crises?

Muitos ainda consideram que o ataque francês à Rússia foi o maior erro militar da história humana. Napoleão causou 100% do desastre? Aqui, Lula e seus aliados causaram 100% da nossa crise?

Ora, 700 mil soldados – quase todos eram franceses, e havia alguns aliados – acompanharam Napoleão porque acharam que conquistar a Rússia era viável e proveitoso. Mas apenas cerca de 50 mil voltaram, e poucos de seus colegas morreram em batalhas. A maioria morreu de fome e frio, em cidades que tinham sido esvaziadas pelos russos, que tinha esse estilo de enfrentar o inimigo: partiam todos ao primeiro sinal de sua chegada, e levavam toda a comida disponível. É por por isso que Napoleão morou quase dois meses no Kremlin, sem fazer prisioneiros, para trocar a liberdade deles com a rendição do czar. Se percebessem a estupidez do projeto, os franceses o evitariam. Quem sabe deporiam Bonaparte, ou limitariam seu espaço político. Enfim, o povo francês parte ter tido parte da culpa pelo desastre militar.

Já no Brasil, quatro vezes os brasileiros elegeram Lula e Dilma. Talvez a maioria dos eleitores não estava alerta para a aproximação da crise, tal como os franceses não anteciparam o inverno rigoroso e faminto que os vitimou.

O mundo inteiro cresceu menos neste início do século 21. Mas o Brasil está entre os que mais sofreram.

Tolstoy parece escrever sobre nossa crise atual

Eis outro traço de “Guerra e Paz” que lembra nossa crise. Suas cerca de 2.500 páginas passeiam entre opiniões: de Napoleão, do czar, de famílias, soldados, nobres… Seu mundo é uma rede de consciências, embora nenhuma tenha importância destacada. O livro passeia entre visões dos observadores da luta, mais ou menos a cada duas páginas. Não é uma história única, e sim uma sequencia de percepções.

Não há heróis. Aparecem sempre os jovens das famílias principais, alguns desde seu nascimento, ou quando opta por tornar-se soldado, se casar, ou por voltar à Rússia depois de ter crescido em Paris… A lista de figuras destacadas cobre o universo de forças e fraquezas.

O relato da crise brasileira também flutua entre visões, aspirações, e a rede de observadores. Não é fácil compreender plenamente quem tem razão, quem parece destinado a vencer a guerra, ou merece terminar a história preso… Se há um exagero na forma como a Justiça recorre à prisão preventiva, etc.

Ainda não antecipamos quanto a crise será capaz de renovar o mundo político, incluindo presidente, governadores, prefeitos, senadores, deputados e outros cargos. Quem é herói ou vilão da Reforma Fiscal? O que dizem e fazem as pessoas que você considera corretas e poderiam ter um papel nas Reformas? Por exemplo, abrindo mão de uma Previdência… Quanto brasileiros querem se tornar heróis em temas que fazem parte da crise: oferecer boa educação, saúde e segurança para todos brasileiros?

É assim que a crise brasileira tem, no seu mix, alguns elementos semelhantes ao fracassado ataque francês à Rússia, liderado por Napoleão. No mundo das crises humanas, nada é totalmente novo.

 

  • As lições de “O Senhor e o Servo”

 

Sempre surpreende o papel dos russos em ciências, tecnologia, cultura, artes,  filosofia… e na criação da boa Literatura, que sobrevive ao tempo.

 

A quantas décadas os livros descrevem a crise atual no Brasil?

 

Pelo menos duas obras de Liev Tolstoy, “Ana Karenina” e “Guerra e Paz”, estão sempre no topo das listas dos mais lidos e relidos. Vale lembrar: em russo, “Mundo” e “Guerra” são a mesma palavra (Mir). Ou seja, o livro podia ter ficado conhecido como “Guerra e Mundo”, Mas não foi assim. Primeiro, porque se espalhou pelo mundo em traduções. E na Rússia, ele é uma marca cultural gigante e inconfundível.

Entender que “Mundo” está em seu título seria como um brasileiro julgar que o clássico de Alceu Valença é sobre uma peça de roupa: “Da manga rosa quero gosto e o sumo / Melão maduro, sapoti, juá / Jaboticaba, teu olhar noturno / Beijo travoso de umbu cajá”.

Claro que o fracasso de Napoleão trouxe a Paz e um novo desenho para o Mundo… São ideias próximas, mas diferentes. O livro tem mais de 100 anos, mas Tolstoy às vezes parece inspirar-se em eventos recentes, como essa crise do Brasil.

Um livro menos lembrado dele é “O Senhor e o Servo”. É curto, tem um fim misterioso, e é irresistível notar seu elo com nossa crise atual. Apesar de breve, é uma bela visita às relações humanas, como já elas eram muitíssimo antes de Tolstoy.

No fundo, é um livro que usa a Literatura como caminho rumo à Filosofia. Lembra o clássico “A Fenomenologia do Espírito”, de Hegel, que viveu antes de Tolstoy. E nos indica como a Natureza impacta as relações humanas… “O Senhor e o Servo” tem bons ganchos sobre a crise brasileira. 

Toda crise humana tem ao menos dois lados

“O Senhor e o Servo” tem apenas dois personagens: o proprietário de terras Vassili Andreevich, e seu funcionário Nikita. Não inclui diálogos entre eles! O livro apenas descreve as situações pelas quais passam, e como se sentem. É um livro 100% sobre emoções. Registra diálogos como aqueles que todos temos com nós mesmos…

Na vila vizinha à de Vassili, alguém põe terras à venda. Nosso herói é ambicioso, o preço é bom, e ele quer compra-las, e rápido! Antes que surja outro interessado, talvez até disposto a pagar mais. Em pleno inverno, após as festas de São Nicolau, Vassili decide ir às compras. A estrada está coberta de neve, e o duro trote deve levar 3 horas. Para a viagem, convoca Nikita, seu bom servo. Os dois vão em um pequeno trenó puxado por Mukhorty, um querido cavalo. O caminho vai irmanar chefe e servo! Especialmente quando se veem, à noite, perdidos na floresta.

A viagem torna-se terrível quando uma nevasca esconde totalmente a estrada. Os dois perdem o rumo, ficaram sozinhos, desorientados, e têm apenas um ao outro. No início, faltava ao patrão uma visão realista do mundo. Mas Nikita sempre soube sua missão: manter-se atento às sobrevivências. Sua, de seu amo e também do cavalo.

A relação entre os dois sempre foi de exploração e submissão. Sabem que são de classes diferentes. Mas ali, perdidos em meio à neve e ao vento, suas relações mudam à medida que o frio lhes alcança. A noite dura mudará suas vidas.

Nikita cai na neve e corre o risco de morrer congelado. Vassili enfim entende algo básico: SUA VIDA estará ameaçada se Nikita morrer! Sim, a vida é compartilhada, como sabemos. Ele decide então deitar-se sobre o pobre Nikita, passar-lhe algum calor, e quem sabe salvá-lo. Quando começa a amanhecer, Nikita, mais aquecido, dispensa o apoio do proprietário e sai em busca do cavalo, de quem eles tinham se perdido.

Nikita logo avista Mukhorty e vê que está morto. Volta ao ponto onde o calor de Vassili o salvou. Mas seu chefe ainda está deitado e agora é ele que parece morto na nevasca.

A ambição humana e sua luta contra a Natureza são temas habituais de Tolstoy. Nikita tem dois espantos: considera que renasceu, e nota que, na sua nova vida, tudo segue igual. Os dois compreendem que seu futuro depende integralmente da vida do outro e do cavalo. O servo pensava assim desde o início, e o proprietário compreendeu ao longo da dura noite, quando busca salvar Nikita e desde o início arrisca sua própria morte. Não é assim a vida humana?

O que Vassili e Nikita dizem sobre a crise atual no Brasil?

O Ciclo de Commodities criou aqui ganchos semelhantes à compra que Vassili planejou: a ambição o levou à viagem comercial em tempo errado, naquele frio dezembrista, criando risco excessivo para si e seu servo. Por aqui, nos últimos anos, muitos empresários e governantes embarcaram em projetos arrojados, às vezes corruptos ou ilegais que de alguma outra forma, ignoraram nossos próprios “frios dezembristas”.

O servo Nikita aceitou o projeto. Era essa seu papel. Ele era puro, tinha se livrado da bebida, era bom sujeito. Mas Vassili seguia preso à cobiça e à rapina. É, a Natureza tem o dom de unir os destinos de Senhores e Servos.

E ali, a neve trabalhou para matar justo o chefe, que tinha criado o risco fatal ao criar uma a viagem em hora errada, e envolvendo nela seu funcionário. Nos últimos anos, muitos “Vassilis” brasileiros ajudaram a criar dois desastres:

1 – Durante, ou após o Ciclo de Commodities, viajar por neves duras, arriscando o caminho rumo ao desenvolvimento.

2 – Como no livro, aqui a neve pode ter prejudicado mais os proprietários, políticos e governantes… Claro que nossos Vassilis seguiram mais ricos do que Nikitas, mas ignoraram a Natureza e alguns perderam muito mais.

Os ricos escalaram os mais pobres para a viagem. Mas aprenderam que seu próprio futuro dependia de salvar seus parceiros do aperto que se aproximava. Em “O Senhor e o Servo”, o cavalo é o primeiro a morrer na neve, e o proprietário tira seu sérvio da morte. Ele sobrevive? Parece que não. É tema ainda vivo na última página do livro, e não há certeza sobre o destino de Vassili.

No Brasil de hoje, empresários podem se empenhar em mitigar a crise. Mas perdem com a queda das exportações, dos investimentos, do faturamento, podem perder vantagens fiscais excessivas, estreita-se o espaço da corrupção que beneficiou alguns, e em alguns casos amarga-se o fim dos negócios.

Crises podem castigar mais os empreendedores: sofrem mais nos anos ruins, e se recuperam mais rápido depois da crise. No livro, os tempos normais são bons para os proprietários. Mas, em dias promissores se lançam em projetos atrevidos, e enfim percebem que sua vida depende da vida de todos. Inclusive dos cavalos! Tolstoy nos diz como pode ser difícil a relações entre empresários e trabalhadores – especialmente quando muda a Natureza, e os planos são mal concebidos! Incrível como essa realidade é antiga. Aqui, hoje isso inclui por exemplo a Reforma Fiscal! Algo mais que Tolstoy e seu idioma nos lembram: a Paz sempre representa também um novo Mundo!

  • 1919 ainda merece o título de “Ano Mundial do Otimismo”

O mundo humano repete padrões, e 1919 ainda é símbolo insuperável de como o ser humano tende a julgar, em dias favoráveis, que o futuro será igual ou melhor. Em dias favoráveis, como são fáceis as conclusões sobre o futuro!

Qual a sua capacidade de antecipar alegrias e desencantos que o mundo e o Brasil te trarão dos próximos anos? Em dias de globalização, de que esquina da Terra virão as mais importantes notícias, boas ou ruins para nossas vidas? Podem ser tecnológicas, ambientais, políticas, econômicas… Talvez conflitos entre países, dentro de países, crises étnicas. Podem ser a violência urbana e a qualidade da gestão pública, aqui no Brasil, e assim por diante.

Para registrar como o futuro é incerto, vale lembrar o que se pensou sobre o futuro logo depois da Grande Guerra, que ainda não era chamada de 1ª Guerra Mundial. Se você estivesse observando o mundo em 1919, anteciparia a Grande Depressão de 1929? – faltavam só 10 anos para a maior crise financeiras do século, que afetou especialmente os EUA. E imaginaria que outra Guerra Mundial, mais espantosa, já estava a caminho? Que incluiria bombas atômicas no Japão, e o envio de tropas brasileiras à Europa para lutar contra italianos e alemães?

Eis a frase que todos repetiam depois da Grande Guerra: “Nous venons de tomber la guerre pour mettre fin à toutes les guerres”.

Sim, acabaram de lutar a Guerra que pôs fim a toda as guerras! Mas seria a última? Só por ser mundial? Infelizmente, não é essa a lógica das guerras. Ser mundial não ensina todos a evitá-las para sempre. A guerra é da natureza humana, e nunca deixará de sê-lo. Claro que houve guerras regionais, mesmo antes da 2ª Mundial. Por exemplo, a Guerra Civil Russa, e diversas outras.

Passadas uma, duas ou três gerações, superam-se as catástrofes, humanas ou da Natureza, e estamos prontos para o próximo ciclo. Basta lembrar do fim do Império Romano, da Grande Peste, da Conquista da América, do Império Otomano, do Holocausto, das Guerras Mundiais… Não pareceu sempre ser o último?

Hoje o mundo pensa em muçulmanos estranhos, Trump, Putin, Brexit, Síria, em baixo crescimento mundial, crise em países como o Brasil, e por aí vamos. “Le scénario catastrophe d’un cataclysme historique est en marche” foi o título de um artigo da Bérengère Viennot na Slate. E essa visão ganha espaço.

Assim como em 1919, nos últimos 30 anos podíamos ter pensado que os tempos das guerras tinham terminado. Ao menos as guerras econômicas. Afinal, vimos o fim da Guerra Fria e da União Soviética, e um novo papel da China no comércio mundial. O Brasil fechou o ciclo militar, o Real pôs fim à inflação espantosa, por 8 anos fomos liderados pelo grande FHC, e parecíamos prontos para mais avanços.

Como nos informamos sobre a conjuntura? Hoje, a Internet nos traz notícias em muitos idiomas e de vários países. Nos avisam que os dias não têm sido 100% tranquilos ou promissores. Nem no mundo, nem aqui.

Em 1919, ninguém podia imaginar que os EUA estavam a apenas 10 anos de mergulhar na maior crise financeiras do século. A Grande Depressão durou até 1933, arrastou outros países, e mudou a visão de todos sobre como deve ser feita a política econômica, e deu brilho a uma nova safra de economistas. O clássico “The General Theory of Employment, Interest and Money”, de Keynes, é de 1936.

Além da Grande Depressão: em 1919, a Alemanha assinou o Tratado de Versalhes, mas em 1939 já era governada por Hitler, vivia o terror nazista, a nova parceria com os italianos, e o começo da 2a Guerra. Entre as muitas estimativas, é possível que a 2a Guerra tenha custado a vida de 80 milhões de pessoas.

Pensando sobre o futuro lá em 1919

Pouco depois da guerra de 1914-18, ao menos duas surpresas: a Depressão de 1929 e a enorme guerra mundial de 1939-45. As duas foram batizadas de 1ª e 2ª Guerra Mundial. Quem podia imaginar isso lá em 1919? As surpresas que o mundo viveu no século XX recomenda cautela ao traçar cenários hoje.

Eis uma visão excessivamente otimista, que todos podíamos ter em 1919. Naquela época, talvez escreve algo assim:

Olá, amigos,

Preparei esta rápida mensagem sobre como vejo, daqui do Rio de janeiro, o fim da Guerra e o Tratado de Versalhes.

Não resta dúvida de que o futuro, nosso e dos nossos filhos, será cordial e próspero. Agora que foi vencida a Grande Guerra, a paz estará sempre presente. Quando olho o mundo daqui, me parece apropriada essa frase que sempre escuto, quando falo com diplomatas, e a leio nas cópias que me chegam do Journal des Débats:

“Nous venons de tomber la guerre pour mettre fin à toutes les guerres”.

Foi a última guerra do mundo? Me parece mesmo que sim. Até aqui, a guerra era regional, não contagiava todos, e a ideia seguia viva na cabeça de governos, militares e dos povos. Isso mudou. Todo o mundo acaba de assinar o Tratado de Versalhes – um passo sofisticado para o fim da “Guerra das Guerra”, que começou em 1914.

Junto-me aos especialistas que batizam de “Proliferação” a crescente ligação entre países, especialmente desde o século passado. Cresceram as indústrias, o comércio, a imigração e outras conexões. No começo, isso acentuou tanto alianças como desavenças.

Em 1914, houve aquele episódio que nos lembramos como se tivesse sido ontem: o arquiduque Francisco Fernando, herdeiro da Áustria-Hungria, visitava a Bósnia, e foi assassinado em Sarajevo! Os austro-húngaros logo declararam guerra à Sérvia, e invocaram alianças com vizinhos.

Outras potências logo entraram na guerra e, através de suas colônias, a guerra se espalhou. Logo após a invasão da Sérvia pelos austro-húngaros, os alemães invadiram Bélgica, Luxemburgo e França. E houve aquele ataque dos russos à Alemanha, te lembras?

E nunca antes os países tinham se reunido, quase todos,  em duas enormes alianças. Sabemos: de um lado surgiram os Aliados (Grã-Bretanha, França, Rússia, EUA e outros), e do outro a Tríplice Aliança (o Império Alemão, a Áustria-Hungria, a Itália e outros). E a guerra também trouxe asiáticos: Japão, China, o território britânico da Índia, e outros. Todos unidos em apenas duas alianças!

Muita morte e sofrimento. Passados quatro anos, a Tríplice Aliança agora se rendeu e chegamos ao Tratado de Versalhes. Junto-me à maioria: confio que o Tratado criou a paz permanente! Afinal, a guerra trouxe muitas novidades: rifle, arame farpado, metralhadora, artilharia, ataques com gas mostarda e outros), aviões, tanques militares, zepelins, submarinos, e as alianças globais. Soldados com metralhadoras: quantos podem matar, mesmo a distância? Acabaram os tempos das guerras!

Enfim, amigos. Foram-se os dias em que os tratados só envolviam governos, aristocratas, militares e diplomatas. Como aqueles vários Tratados assinados em Viena nos últimos dois séculos.

Versalhes e Paris são diferentes do passado: os acordos agora envolvem também o interesse do povo. Abraço a convicção de que “a Guerra para Acabar todas as Guerras” encerrou mesmo os dias das guerras. Se me pedissem para criar uma palavra para nossos dias, eu substituiria esse termo habitual, “Proliferação”, por algo como Globalização. Será assim o mundo dos nossos netos: pacífico e globalizado.

Guilherme

Qualquer breve nota rabiscada no início deste século, nos tempos da transição entre FHC e Lula, provavelmente repetiria um tom otimista, e não anteciparia a crise que logo envelopou o Brasil. Faz pensar sobre como humanos podem ter Otimismo sobre o futuro que os aguarda. Ou mesmo Pessimismo, em tempos de dificuldades. Melhor se formos capazes de focar no presente: consertar defeitos visíveis, bem desfrutar de vantagens existentes, e deixar que o futuro curse seu tempo.

 

Em tempos de crise, vale lembrar da frase de Isaac Newton, anotada por Tolstoy: “Nada é causa. Tudo isso é apenas a coincidência das condições sob as quais ocorre qualquer acontecimento vivo, orgânico, elementar.” E os tempos bons lembram uma frase clássica de John Kennedy: “A hora de consertar o telhado é quando o sol está brilhando”.

[1] Se escrevesse hoje, talvez Tolstoy dissesse “governante” e não “rei”. Afinal, há muitos presidentes e primeiros-ministros.

[2] “Verter ou não verter o sangue do seu povo”.

[3] Em abril de 1812, um grande contingente do exército francês atravessou o rio Oder e invadiu a Prússia. Ameaça militar direta para a Rússia.

[4] Napoleão esteve em Dresden com seus aliados (o imperador da Áustria, o rei da Prússia, o rei da Saxônia e outros) em maio de 1812. Lá, recebeu toda sorte de homenagens.

[5] Пуд (Pud) é uma antiga medida russa de peso. Corresponde a cerca de 16,4 quilos.

 

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Guilherme da Nobrega
Todos os textos deste blog são produzidos por Guilherme da Nóbrega, que se formou em Economia na London School of Economics and Political Science. Ao contrário do Brasil, onde o curso de economista é igual para todos, a LSE segue o estilo europeu: os alunos podem fazer escolhas ligeiramente diferentes, e sair da faculdade com títulos de economia diferentes. Como já fazemos aqui em engenheira, medicina, comunicação, e alguns outros, mas não em economia. Na época, a LSE tinha seis áreas de formação em Economia. Guilherme escolheu “Comércio Internacional e Desenvolvimento”. Na sua vida profissional, ele ajudou a fundar a Tendências Consultoria Integrada, talvez ainda a maior consultoria econômica do Brasil, sediada em São Paulo. Mais tarde, tornou-se economista do Banco Fibra, depois do Itaú, e daí para a Guide Investmentos. Teve dois breves períodos no setor público. Primeiro no Ministério do Trabalho, como assessor do ministro Edward Amadeo. E mais recentemente, alguns meses no Ministério da Fazenda, com o ministro Joaquim Levy.
http://www.pontoon-e.com

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