Em um recente artigo na Revista Foreign Affairs de Março/Abril de 2018*, a Diretora de Segurança Energética e do Programa de Mudanças Climáticas do Conselho Internacional da Fundação David M. Rubestein, Amy Myers Jaffe, escreve um excelente artigo sobre o boom de investimentos chineses em energia renováveis dando suas explicações extremamente elucidativas.

Desde que assumiu como líder do Partido Comunista Chinês (PCChinês) em 2012,  Xi Jinping colocou a China em uma nova e ambiciosa trajetória de tornar o país em um importante player global no segmento de energias renováveis.

Atualmente, a China já domina o mercado de painéis solares e busca expandir cada vez mais seus investimentos em novas tecnologias “environmental friendly”. O objetivo maior dessa estratégia é a de diminuir a dependência do país por importações de petróleo de nações amigas e outras de caráter duvidoso e/ou imprevisível, dado que qualquer ruptura de maior proporção na oferta de petróleo poderia colocar em xeque o crescimento econômico chinês e de quebra a legitimidade do PCChinês. Além de buscar reduzir sua dependência por importação de petróleo de outros países, a China busca também aproveitar a enorme oportunidade de demanda crescente por tecnologias que diminuam a emissão de carbono no processo produtivo.

Se a estratégia de Beijing der certo, o país continuará a ajudar outras nações a endereçarem os desafios das mudanças climáticas, com menores custos. Como se não bastasse, essa estratégia ainda contou com seu principal “parceiro” econômico, os EUA, quando Donald Trump decidiu sair do Acordo do Clima, ajudando enormemente a China a conquistar novos mercado e aplausos diplomáticos ao se tornar um poderoso player global em energias renováveis.

Mas porque a China busca diminuir sua dependência por petróleo? Depois de seu crescimento estelar no início da década 2000, o país teve de procurar outros fornecedores que sofriam sanções impostas pelo Ocidente, como o Irã, Iraque, Sudão, Venezuela e Rússia. Mas a China tem encontrado diversos problemas com o fornecimento desses países. No Iraque a falta de segurança tem afetado enormemente projetos chineses na exploração de petróleo no país. No Sudão, a interminável guerra civil tem restringido severamente a quantidade de produção de petróleo, liderado por empresas chinesas, além da China sofrer pesadas represálias diplomáticas por transacionar com um país condenado pela comunidade internacional por crimes de guerra.

A história na Venezuela já é um pouco diferente. De 2007 a 2014, durante os governos de Hugo Chaves e de Nicolas Maduro, os chineses proveram US$60 bilhões em empréstimos garantido por produção de petróleo para Caracas. Mas a exportação de petróleo venezuelano para a China alcançou apenas 450,000 barris dia em 2017, ou apenas metade do volume que os chineses haviam antecipado.

De tal sorte que apesar da China hoje em dia produzir 3.9 milhões de barris dia, ainda importa 70% do petróleo que utiliza, devendo chegar a 80% no ano de 2030. Essa crescente dependência por petróleo importado tem deixado os lideres chineses bastante desconfortáveis. Sem dúvida a segurança energética da China parece ser bem mais desafiadora do que a dos EUA, que tem aumentado vertiginosamente sua produção de gás e óleo de xisto. Tal insegurança tem levado inclusive a China a questionar a secular fragilidade geopolítica do Oriente Médio, onde apesar de Washington ainda garantir o fluxo internacional de petróleo, atuando como importante player nas defesas das rotas marítimas, há de se considerar uma eventual retirada dos EUA como “protetor” da região, ou pelo menos no que concerne o suprimento à China. Podendo em um caso nada absurdo, levar Trump a cobrar algum pedágio com essa proteção em suas lambanças comerciais protecionistas. Diversos analistas chineses têm alertado o governo de que o transporte marítimo desses recursos petrolíferos por linhas protegidas pelos EUA e por outras nações, com crescentes poderes regionais e marítimos como o Japão e a Índia, conferem a China um importante e persuasivo argumento para o país substituir sua crescente dependência por óleo estrangeiro, por energia renovável doméstica.

De acordo com a International Energy Agency (IEA), o setor privado e público chinês investirá mais do que US$6 trilhões em geração energética de baixo carbono e outras tecnologias limpas até 2040. O setor de energia renovável no país agrega 125 GW de energia solar, quase duas vezes mais do que os EUA (47 GW) e a Alemanha (40 GW). As empresas chinesas hoje em dia têm capacidade de produzirem 51 GW de painéis solares fotovoltaicos por ano, mais do que o dobro da produção global de 2010. Durante a última década, as exportações chinesas contribuíram para uma queda de mais de 80% no preço dos painéis solares. Investimentos chineses no futuro em novas tecnologias de baterias, certamente terão impactos similares no nível de preços desses produtos. Atualmente, 24% da matriz energética da China é proveniente de recursos renováveis, ao passo que nos EUA é de apenas 15%.

Essa realidade energética percebida pelos chineses tem feito Beijing aumentar espetacularmente seus investimentos em energias renováveis. O país, no entanto, não busca apenas sua segurança, mas também em se tornar um polo desenvolvedor e incentivador de energias renováveis. Ao vender seus produtos e serviços para ajudar outros países a endereçarem os impactos das mudanças climáticas, a China pode ao mesmo tempo subtrair parte do mercado dos EUA na exportação de recursos energéticos fósseis. No futuro, quando os EUA tentarem vender parte de sua produção de petróleo para países da Ásia e Europa, estarão não apenas competindo com o gás da Rússia, mas também com os painéis solares e baterias chinesas. Ao ajudar outros países oferecendo energia limpa, renovável e abundante, a China limitará também a habilidade de Washington em utilizar as reservas petrolíferas dos EUA e seu poder bélico protetor das linhas marítimas, por onde escoam grande parte das reservas de petróleo do Oriente Médio, para “forçar” alianças com outros países.

Enfim, ao que tudo indica, quer por motivos de segurança energética, comercial, política e/ou geopolítica, os investimentos dos chineses no segmento de energias renováveis deverão continuar crescendo e com isso, o mundo agradece.

 

*“Green Giant: Renewable Energy and Chinese Power” – Amy Myers Jaffe

https://www.foreignaffairs.com/articles/china/2018-02-13/green-giant


 

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Roberto Dumas
Mais de 30 anos de experiência no mercado financeiro. Trabalhou em instituições renomadas (UBS, Citigroup, Lloyds Bank e Itaú BBA). De 2007 a 2011 representou o banco Itaú BBA em Shanghai. Também atuou no banco dos BRICS em Shanghai (New Development Bank) na área de operações estruturadas e risco de crédito. Dumas é Mestre em Economia pela Universidade de Birmingham na Inglaterra. Mestre em Economia Chinesa pela Universidade de Fudan (China). Graduado e pós-graduado em administração e economia de empresas pela FGV e Chartered Financial Analyst conferido pelo CFA Institute (USA). Professor de Economia Internacional e Economia Chinesa do INSPER, IBMEC São Paulo, Fundação Instituto de Administração (FIA-USP) e Saint Paul Business School. Professor Convidado da China Europe International Business School (CEIBS) e Fudan University (China).

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