A postergação do PLD Horário para 2020 atendeu a um desconforto do setor sobre a precipitação em sua vigência. Em geral, os consumidores são favoráveis à modernização que está em pauta. Porém, não havia consenso sobre a pressa em pleno ano eleitoral e com tantas conturbações econômicas e políticas.

O assunto agora perde temporariamente o foco. No entanto, não deveria sair da pauta de discussões, pois diversos questionamentos ainda são pertinentes à importância e aos impactos dessas mudanças, sendo o um deles com relação à assertividade do preço sombra ao preço online quando estiver vigente.

O adiamento não implica necessariamente em mais tempo de adaptação aos agentes. Somente se a operação sombra do PLD em base horária for mantida durante todo o período, cobrindo mais de um ciclo completo dos períodos seco e úmido, e de tal forma que reflita o custo real operação com assertividade e consistência. De nada adianta acompanharmos o PLD Sombra por meses se os valores não forem aderentes ao preço instantâneo e à volatilidade que devemos esperar quando efetivamente estiver em vigor, contrapondo os valores sombra que até então vêm variando minimamente entre as horas de um mesmo patamar.

Importante que o PLD sombra evidencie devidamente a nova realidade de carga, de que o horário de ponta não acontece mais no início da noite. Os últimos blackouts por excesso de carga ocorreram sob sol a pino. Com a ascensão da classe média e o incentivo à aquisição de aparelhos de ar condicionado e, por outro lado, a melhoria na eficiência energética dos eletrodomésticos, a substituição dos chuveiros elétricos pelo gás residencial e o uso das lâmpadas LED, o pico de demanda agora ocorre no meio da tarde. Assim como os valores mais altos do PLD Horário.

Se fizermos um acompanhamento da evolução histórica do PLD semanal, veremos que a diferença do preço entre os patamares de carga pesado e médio nos submercados Sul e Sudeste/Centro-Oeste foi reduzida até ficarem nivelados nos meses mais recentes.

(Fonte dados do gráfico: CCEE)

O deslocamento do patamar de carga para o período vespertino já discutido há alguns anos – e cabe ressaltar, sem a devida atenção – não seria um momento oportuno para adequação?

Outro ponto é com relação à modulação da carga. Para a maioria dos consumidores livres, nem mesmo dois anos é tempo suficiente para ajustar o modelo de negócios, considerando que mais de 70% dos contratos firmados têm duração superior a quatro anos, segundo dados da própria CCEE.

Para os consumidores livres com contratação modulada conforme a carga, não deve haver impacto. Já para os consumidores com contratos tipo “flat”, mas com flexibilidade de operação haverá a possibilidade de se obter ganhos com a mudança, se houver efetividade na alocação dos produtos de maior consumo de energia durante a madrugada e pela manhã. A tomada de decisão também deverá exigir agilidade, visto que o PLD Horário será divulgado no dia anterior.

Contudo, a situação acima descrita muda para aqueles que se planejaram para operar com modulação no horário de ponta e firmaram contratos de longo prazo tipo “flat”, especialmente os eletro-intensivos, esses seguramente não terão tempo de reação. Neste momento de assimetrias e incertezas, só é possível alterar contratos “flat” para modulados arcando com algum prêmio aos fornecedores, sujeito ainda a negociações e alterações que podem afetar interesses de longo prazo para ambas as partes.

Restam ainda mais desafios para os consumidores que atualmente operam com modulação de carga. Aqueles enquadrados em modalidades tarifárias binárias, por exemplo, terão que se adaptar a dois períodos restritivos diariamente. Indústrias com processos contínuos perdem muita eficiência em trocas de produção e dessa forma dificilmente escaparão de pagar o PLD mais alto da tarde na contabilização mensal da CCEE ou então de pagar a ultrapassagem de demanda no horário de ponta para a respectiva distribuidora. Ou seja, qualquer opção passa a ser onerosa.

Colocadas essas questões em pauta, restam duas perguntas fundamentais que os consumidores devem analisar: Por que não aproveitar o aprimoramento para antecipar o horário de ponta ao atual pico de demanda? Como garantir que o PLD sombra vai simular com assertividade o comportamento que devemos esperar quando o preço horário estiver efetivamente em vigor?

São questionamentos que poderiam se transformar em pleitos justos. Caberá ao conjunto dos consumidores a decisão de se unirem, talvez através de suas respectivas representações e associações e buscar essas respostas junto aos reguladores.


Apresentação:

Carolina van der Laars Ribeiro é engenheira mecânica com experiência executiva em indústrias B2B nos ramos de refrigeração, siderurgia e papeleiro. Atualmente, Carolina é Gerente de Relações Externas, Negócios e Energia do Grupo BO Paper Brasil, responsável pela gestão integrada de fornecimento de energia elétrica para as três empresas do grupo que atuam no mercado livre de energia, sendo uma comercializadora e duas unidades consumidoras eletro-intensivas.

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