Não se trata de mau humor, oposição “Boulística” ou fé quanto ao movimento “resistência”. Credo! Mas parece que a comunicação do novo governo e das peças chaves não parecem ainda muito azeitadas. Digo isso pois chocou um pouco a declaração do provável futuro ministro-chefe da casa civil Onyx Lorenzoni quanto ao futuro do câmbio, juros e meta de inflação.

12019 / Pixabay

Em uma entrevista confusa, pelo menos para economistas, para veterinários talvez possa ter feito sentido, minha preocupação tornou-se imediata dado o claro descompasso entre os membros do novo governo. De qualquer maneira, acho meritório escrever o porque da declaração do futuro ministro, sobre o que ele acha que acha ou que talvez poderia ou como deveria ser estabelecida a relação entre a política cambial, meta de inflação e juros.

Em uma comunicação ruidosa, o que é péssimo para as expectativas dos agentes econômicos, pareceu que o novo governo busca algo bastante pitoresco no campo da política macroeconômica: “Estabelecer um intervalo adequado de juros que seja condizente com um intervalo de meta de inflação, defendendo ainda segurança jurídica e previsibilidade”.

Previsibilidade do que? Da taxa de câmbio? Óbvio que por honestidade intelectual confiro o benefício da dúvida, mas espero que esses ruídos, passíveis de ocorrerem em momentos de campanha, não ocorram mais no novo governo. Afinal todos estão com olhos de lince esperando qualquer informação ou “deslizes” para precificarem seus ativos, leia-se câmbio, juros futuros e bolsa.

Mas por que a “eventual” confusão assusta? Mais uma vez peço desculpas pelo economês chato, mas serei breve:

Arcabouço da Condição da Paridade de Juros (CPJ):

De acordo com a CPJ, onde quer que um investidor aloque seu dinheiro, aqui ou lá fora, assumindo títulos com prazos iguais e soberanos, o retorno terá de ser o mesmo quando expresso na mesma moeda, acrescido do risco país. Ou em termos lineares:

i – i* – ΔS – Risco País = 0        Eq. (1)

Ambos com prazo de maturação iguais

Onde

i = Remuneração de um título soberano doméstico

i* = Remuneração de um título soberano internacional

ΔS = Variação cambial esperada no período

Ora o insight da equação 1 acima é óbvio. Se o país doméstico estiver oferecendo uma remuneração de um título soberano maior que o retorno oferecido por um título semelhante no exterior, que compense a variação cambial e o risco país, então haverá uma entrada de capitais de modo a aproveitar esse retorno maior.

Mas agora vamos supor por um momento que o governo decida efetivamente estabelecer metas para o câmbio (banda cambial), juros e inflação. Para facilitar, vamos colocar alguns números hipotéticos. Vamos supor que o Banco Central (ainda duvido muito que isso aconteça, mas convém explicar em detalhes!) estabeleça uma banda cambial de R$/US$3.70 – R$4.30, ou seja, pela banda cambial proposta, o Banco Central toleraria nos limites estabelecidos uma flutuação cambial de 16.22% ou ΔS = 16.22%.

Apenas para simplificarmos, vamos supor inicialmente que os EUA estejam pagando zero (0) em seus títulos públicos e que o risco país também seja zero (0). Dessa forma, de acordo com a eventual proposta, a meta de taxa de juros doméstica seria de 16.22%, desprezando quaisquer custos transacionais (bid-ask spread, impostos, etc.). Mas aí que a trindade começa a ruir por dois motivos básicos:

  • E se a meta de inflação estabelecida do Banco Central for de 4.25% ao ano e a taxa de inflação já estiver em 1% ao ano? Talvez uma taxa de juros de 16.22% como a necessária para manter a paridade de juros e a banda cambial (meta) não seja condizente com a inflação observada. Nesse caso, o que fazer? Mudar-se-ia a meta de inflação ou do câmbio? Se a meta cambial mudar, pela paridade de juros a taxa de juros também deveria mudar;

 

  • E se o risco país aumentar, digamos para 600 basis points? Como defender a meta cambial? Certamente pela paridade de juros o Banco Central teria de aumentar os juros para defender a meta ou banda cambial de R$/US$3.70 – R$/US$4.30. Se ainda assumirmos que a nossa meta de inflação continuasse nos 4.25%, já teríamos de quebrar duas regras ou duas metas: A meta de inflação e a meta de juros ou abandonar a meta cambial.

Como se vê esperamos para o bem da boa política macroeconômica, que a entrevista dada pelo futuro ministro-chefe da casa civil tenha sido apenas uma opinião política, de quem ainda não atinou para o poder de suas palavras enquanto partícipe do governo.


 

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Roberto Dumas
Mais de 30 anos de experiência no mercado financeiro. Trabalhou em instituições renomadas (UBS, Citigroup, Lloyds Bank e Itaú BBA). De 2007 a 2011 representou o banco Itaú BBA em Shanghai. Também atuou no banco dos BRICS em Shanghai (New Development Bank) na área de operações estruturadas e risco de crédito. Dumas é Mestre em Economia pela Universidade de Birmingham na Inglaterra. Mestre em Economia Chinesa pela Universidade de Fudan (China). Graduado e pós-graduado em administração e economia de empresas pela FGV e Chartered Financial Analyst conferido pelo CFA Institute (USA). Professor de Economia Internacional e Economia Chinesa do INSPER, IBMEC São Paulo, Fundação Instituto de Administração (FIA-USP) e Saint Paul Business School. Professor Convidado da China Europe International Business School (CEIBS) e Fudan University (China).

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