Francisco acordou naquela manhã, dirigiu-se ao banheiro para barbear-se, olhou para o espelho que o identificou e saudou-o com uma protocolar mensagem de bom dia, prontamente o alertou que o iogurte favorito que comerá em alguns minutos no café da manhã estará vencido em dois dias, oferece a ele para incluir mais na lista de compras on-line de seu varejista preferido, mostra também onde há ofertas do produto. Um movimento afirmativo com a cabeça e o sistema inteligente de sua casa trata de registrar sua opção. Em seguida uma imagem a esquerda mostra que a bateria do carro elétrico de Francisco estava com a carga completa, o sistema inteligente havia programado o abastecimento para ocorrer no horário em que a tarifa estava mais barata, e assim o fez, prontamente o espelho oferece a Francisco que venda o excedente da energia armazenada no veículo as 14:00, horário de pico de consumo naquele dia quente do verão paulistano, ele concorda e prontamente recebe uma mensagem estimando os ganhos com a operação.

A esposa de Francisco se junta a ele, olha para o espelho e comenta: “Acompanhando seu brinquedo novo?” e já emenda outro comentário: “só você mesmo para querer ter um carro, ninguém mais quer ter um, estamos em 2040!”. Mas esse era um capricho de Francisco, talvez herdado do pai, que colecionava carros décadas antes o que trazia boas lembranças de sua infância.

O casal de 20 e tantos anos pede um veículo autônomo para levá-los de sua casa na Aldeia da Serra até o mais novo centro financeiro de São Paulo, onde antes ficava a antiga Cidade Universitária, a área revitalizada abriga empresas de alta tecnologia, sedes locais de multinacionais em um ambiente diverso, conectado e com muita área verde. Durante o  caminho de uns 30 minutos, sem congestionamentos, o casal aproveita o tempo e faz uma vídeo conferência com o arquiteto que vai reformar a casa, no para-brisas podem alterar a maquete do projeto instantaneamente. Na metade do percurso o veículo sem motorista da empresa de carros compartilhados autônomos oferece se querem dividir a corrida com outro casal já previamente registrados na rede deles, se sim, a corrida ficaria 30% mais barata, ao aceitar, podem ver nas janelas laterais as últimas atualizações sobre o casal nas redes sociais e verificar se haveria algum interesse comum entre eles.

Final do dia e Francisco verifica em seu smartphone ultra fino, transparente e vestível que os seus painéis solares haviam produzido eletricidade para sua casa com 100% de eficiência e oferece a opção de ligar o ar-condicionado, aquecer a água e também mostra os lucros das operações de compra e venda de energia feitas durante a tarde, assim como o status de carga das baterias da sua casa e do carro.

Hora de ir para casa, a tarde quente trouxe as chuvas, Francisco seleciona o modo impermeável de sua roupa e as baterias biológicas são carregadas com a eletricidade de seu próprio corpo, prontas para secá-lo em segundos caso tome chuva. O sistema de carros autônomos sugere a melhor opção para que ele chegue cedo em casa. Apesar das chuvas fortes não há colisões, nem acidentes ou congestionamentos, os sistemas são confiáveis como os controles de voo dos aviões.

Em 2018 o Francisco de 2040 ainda é apenas um personagem, mas essas e muitas outras facilidades serão a realidade. O mundo que conhecemos hoje estará nos livros de curiosidades como descrição de práticas e hábitos que serão inaceitáveis ou até mesmo repudiados em 2040. A forma cotidiana de vida mudará radicalmente graças a revolução da energia combinada com software, automação e sistemas de inteligência artificial. Em 2040 será inaceitável queimar combustíveis fósseis para mover um automóvel, usinas a carvão serão desnecessárias no mundo todo graças aos avanços das células solares combinadas a novas gerações de baterias com altíssima capacidade de armazenamento.

Não haverá postos de gasolina em todas as partes, eles existirão em nichos de mercado para colecionadores de relíquias. Ninguém precisará de carteira de habilitação para dirigir, a não ser quem queira praticar o esporte de controlar um veículo, pagando muito caro por isso e em regiões restritas, pois os controles autônomos assegurarão viagens sem colisões e sem necessidade de motoristas. Em 2040 não haverá seguros para carros individuais, talvez apenas para colecionadores, existirão apólices para cobrir sistemas inteiros de mobilidade. Muitas montadoras desaparecerão e as sobreviventes deixarão de vender seus carros para tornarem-se prestadoras de serviços de mobilidade. Diferentemente de hoje, as mortes no trânsito serão tão raras quanto ser morto por um raio numa tempestade.

As pessoas poderão morar muito mais distantes do local de trabalho, pois os deslocamentos serão mais rápidos, com tempo definido e durante o trajeto poderão realizar atividades como trabalhar e interagir com os outros sem prestar atenção ao trajeto ou ao veículo. Isso mudará completamente o panorama imobiliário de todas as grandes cidades do mundo.

Negócios que em 2018 eram garantia de renda e de segurança financeira simplesmente desaparecerão. Estacionamentos para carros serão raros, pois se tornarão desnecessários. Em 2018 cada proprietário de um veículo o mantém 94% do tempo parado, em média. Em 2040 esse tipo de desperdício será inaceitável, um veículo autônomo pode rodar 24 horas por dia. Carros elétricos têm entre 8 a 10 partes móveis contra mais de 100 em um veículo a gasolina, e assim duram milhões de quilômetros e precisam de pouquíssima manutenção.

Cada residência poderá ser uma mini usina de energia, produzindo-a, armazenando-a e criando negócios e oportunidades para que os proprietários possam realizar operações de venda de seus excedentes. Em uma era de tanta automação e controles, o conforto dessa vida dependerá de energia abundante e barata, descentralizada, simples e vinculada a atividades financeiras que as securitizem e financiem. Milhões de novos produtos e serviços surgirão, compensando as perdas de empregos em montadoras, na cadeia do petróleo e da energia não limpa.

Esse futuro não é ficção, ele já começou a ser desenhado hoje, quem ficar para trás perderá imensas oportunidades. Basta lembrar dos negócios de telefonia fixa há 25 anos. Imagine a reação de alguém que naquela época alugava linhas de telefone para viver! O que diria se alguém contasse que em 2010 qualquer pessoa poderia usar um telefone móvel, na palma de uma mão, como se fosse um computador e que linhas fixas seriam completamente dispensáveis, e tudo isso por menos do que um salário mínimo!

Nesse mundo do futuro a posse de bens será massivamente substituída pelo que se chama “as a service”, ou seja, pagos pelo serviço que prestam e quando necessário, barateando muito a vida e viabilizando confortos hoje inacessíveis. A energia e a tecnologia, juntas, tornarão a vida muito melhor.

Não fique para trás, acompanhe as novidades aqui na Pontoon-e e seja um protagonista de 2040 já em 2018.


 

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Alex Pomílio
Atua em consultoria na área de gestão estratégica, com foco principal em questões ligadas ao setor de energia elétrica, indústrias elétro intensivas e energo intensivas. Avaliação de projetos de investimentos em projetos de geração e comercialização de energia elétrica, “Project Finance”, financiamento e estruturações na área. Atua também em processos de reorganização estratégica de empresas, fusões e aquisições. • MBA em Gestão de Energia Elétrica na FIA-USP (em curso) • Pós-Graduação em Administração de Empresas pela FGV-SP • Pós-Graduação em Economia Industrial pela UNICAMP • Cursos internacionais em Estratégia e Desenvolvimento de Negócios pela Columbia University de Nova Iorque e IMD na Suiça • Engenheiro de Materiais pela UFSCar (Universidade Federal de São Carlos) com especialização em Ciência de Polímeros • Atualmente Conselheiro Consultivo da Pisa Indústria de Papéis, Nórdica Energia e BO Paper (antiga Stora Enso Arapoti) e “Business Partner” da Wave Corporation, atuando no desenvolvimento de negócios focado em Energia Elétrica • Foi Diretor Geral da Pisa Indústria de Papéis, Nórdica Energia e BO Paper, tendo passado nesse mesmo grupo pelas posições de Diretor de Vendas, Diretor de Energia e Novos Negócios e Diretor de Relações Externas • Foi Diretor Geral da Magna International do Brasil e anteriormente Diretor de Vendas e Engenharia para América do Sul • Executivo de outras empresas como Delphi Automotive (ainda no Grupo General Motors e Plascar Autopeças)

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