A partir de premissas previstas pelo governo para a nova política, o Projeto Sucre – iniciativa com foco em pesquisas sobre cogeração de energia a partir da palha da cana – estima que o aumento da geração de eletricidade por térmicas movidas a biomassa de cana poderá resultar em um nível de emissões no setor elétrico brasileiro 15% menor em um até cinco anos caso essa fonte substitua parte das usinas a gás natural que estão previstas para entrar em operação no período.

O cálculo é baseado em uma projeção da equipe técnica do governo para o RenovaBio que calcula que o programa poderá estimular uma expansão 3 milhões de hectares da área de cana no país para atender ao previsto aumento da demanda por etanol. A estimativa foi elaborada considerando que o crescimento da oferta de etanol virá de usinas de cana. Não considera, portanto, a tendência de aumento da oferta de usinas de etanol de milho.

Também foi levado em conta que, nesse período, as usinas sucroalcooleiras hoje existentes poderão aumentar o uso da palha da cana nos processos de cogeração para 50% do volume que normalmente fica no solo. Atualmente, o segmento utiliza em suas plantas de cogeração entre 20% e 35% da palha produzida por safra, enquanto o restante fica no solo após a colheita da cana. Também estão previstos ganhos de eficiência nas unidades de cogeração existentes.

A comparação com as térmicas a gás natural se justifica porque as unidades de biomassa de cana são “substitutas naturais” à fonte fóssil – diferentemente das fontes solar e eólica, que são intermitentes -, explica Thayse Hernandes, coordenadora do Projeto Sucre e pesquisadora do Laboratório Nacional de Ciência e Tecnologia do Bioetanol (CTBE), que integra o Centro Nacional de Pesquisa em Energia e Materiais (CNPEM). O projeto é financiado pelo Fundo Global para o Meio Ambiente (GEF) e gerido em parceria com o Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD).

As projeções foram feitas também considerando a potência que está prevista para entrar em operação nos próximos cinco anos pela Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel). Na lista de projetos está prevista a adição de 48,6 gigawatts (GW) a partir de térmicas a gás natural e de 1,1 GW de térmicas a biomassa de cana.

Também estão na lista projetos de térmicas que utilizam como matéria-prima outras biomassas (como biogás e resíduos agroindustriais) que acrescentarão nos próximos anos 3 GW de potência, além de 7,9 GW adicionais de outras fontes fósseis, 33,2 GW de geração solar, 7,1 GW de eólicas e 1,4 GW de fonte nuclear.

“Nossa matriz energética hoje é limpa, mas na potência prevista cadastrada na Aneel, a grande maioria vem de gás natural. Isso vai sujar uma matriz que é limpa, enquanto há um enorme potencial para a eletricidade da cana”, diz a pesquisadora Nariê Souza, mestre em engenharia agrícola e integrante do Projeto Sucre.

Mesmo sem o estímulo do RenovaBio, apenas o aumento do uso da palha da cana para 50% do volume disponível poderia aumentar a geração a partir de biomassa de cana para 107 terawatt-ano (TWh) – ante 21,4 TWh em 2017 -, de forma a mitigar 11,4% das emissões de gases de efeito-estufa que seriam emitidos pelas térmicas a gás natural, segundo o Projeto Sucre.

Atualmente, a geração de energia a partir da biomassa de cana já resulta em um nível menor de emissões caso essa mesma quantidade de energia fosse gerada a partir do gás natural. Em 2017, os 21,4 TWh gerados a partir da biomassa da cana resultaram em uma emissão 2% menor caso essa energia tivesse vindo de térmicas a gás.

 

Fonte : Valor

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