INFOMONEY | Gustavo Montezano tem uma nova missão para o inchado banco de desenvolvimento do governo brasileiro: pare de inundar a economia com crédito subsidiado e comece a parecer mais um banco de investimento tradicional.

Montezano, que se tornou presidente do BNDES em julho, após 17 anos de carreira no mercado financeiro, diz que seus novos clientes são o governo federal, Estados e cidades.

Gustavo Montezano, presidente do BNDES. 16/7/2019. REUTERS/Adriano Machado

“Estamos construindo uma equipe de banco de investimento para cobrir ministérios, todo o Estado, as 100 principais cidades”, disse Montezano, 39 anos, em entrevista na sede da Bloomberg em Nova York.

“Faremos um trabalho tradicional de banco de investimento — batendo nas portas dos clientes, propondo a venda de ativos, concessões e otimização de portfólios”. A ideia é “trazer toda a infra-estrutura financeira que temos para implementar esse plano”, disse ele.

A estratégia é bem diferente da adotada por administrações anteriores, que usaram o banco de desenvolvimento para construir “campeões nacionais” — gigantes corporativos, como a JBS (JBSS3), que usaram bilhões do BNDES em empréstimos e compra de participações para se tornarem competidoras globais em seus negócios.

A política levou a carteira de empréstimos do BNDES para R$ 695 bilhões no fim de 2015.

Como parte dos esforços do presidente Jair Bolsonaro em diminuir o tamanho do Estado, o BNDES está agora tentando vender sua participação nessas empresas e em outras, e ajudando o governo a privatizar ativos como a Correios e a empresa de energia Eletrobras (ELET3ELET5ELET6).

“Ainda estaremos lá emprestando — não haverá falta de crédito para empresas brasileiras –, mas com a quantidade de capital procurando investimentos em todo o mundo, não precisamos ser o único credor”, disse Montezano, que foi um executivo do Banco BTG Pactual, incluindo uma passagem como sócio-gerente para a área de empréstimos corporativos.

“Nossas capacidades de empréstimo serão usadas como um catalisador para trazer mais capital de outras fontes.”

» Gustavo Montezano: Montezano já teve experiência como executivo da instituição financeira. Nascido em Brasília e criado no Rio de Janeiro, Montezano ingressou no governo após passagem pela Engelhart CTP, trading de commodities, onde era diretor de operações. Antes de se mudar para o BNDES, foi secretário de privatização do Ministério da Economia. Montezano obteve seu diploma de mestrado na Ibmec, uma escola de negócios do Rio, e é bacharel em engenharia mecânica pelo Instituto Militar de Engenharia da cidade, de acordo com seu perfil do LinkedIn.

Ficando menor

Os antecessores de Montezano já tinham começado a cortar a carteira de empréstimos do banco, que caiu para R$ 463 bilhões em setembro. Eles também tentaram vender parte dos R$ 120 bilhões em participações societárias, que incluem fatias na estatal Petrobras (PETR3PETR4) e na produtora de papel Suzano (SUZB3), embora sem muito sucesso.

O novo presidente está fazendo mudanças para ajudar o BNDES a vender algumas dessas participações, que ele chamou de “portfólio especulativo de ações”. BNDES tem cerca de 21% das ações da JBS

Elas incluem novas regras para definir melhor o que seria considerado um “preço justo” para uma venda e alterar os regulamentos internos para exigir a aprovação do conselho para qualquer venda com valor superior a R$ 1 bilhão.

Em um dos primeiros passos nessa direção, a JBS disse na terça-feira que o BNDES contratou bancos para vender uma participação na empresa. O BNDES tem cerca de 21% das ações da JBS, o maior acionista após a família Batista.

“Estamos em um momento positivo para os mercados acionários brasileiros agora”, disse Montezano na quarta-feira em um fórum em Nova York patrocinado pelo Banco Bradesco, acrescentando que vendas poderão ser realizadas este ano. O objetivo é alienar todo o portfólio em três anos, disse ele.

O executivo disse que, no entanto, prefere esperar a conclusão do IPO da Saudi Aramco antes de pensar em vender participação na Petrobras.

Montezano disse que o BNDES tende a ser mais conservador do que um investidor privado, portanto o processo de vendas pode demorar mais. O objetivo é evitar afetar os preços de mercado.

Outro legado das administrações anteriores que Montezano está tentando desfazer é a dependência do Estado dos lucros do banco de desenvolvimento para ajudar a equilibrar o orçamento.

“Nos últimos 15 anos, o BNDES foi usado como uma máquina de receita primária” para o governo, disse. Isso “deixou o banco muito ávido por lucros e participação de mercado” e foi uma distração do que deveria ter sido o principal objetivo da instituição, disse ele.

» BNDES & Dividendos: BNDES está pagando R$ 132 bilhões este ano ao governo, incluindo R$ 9,5 bilhões em dividendos.“Não estamos aqui para obter lucros, mas para melhorar a vida do povo brasileiro, melhorar a produtividade da economia, melhorar as condições sociais e ambientais”, disse Montezano.

Mesmo assim, o BNDES está pagando R$ 132 bilhões este ano ao governo, incluindo R$ 9,5 bilhões em dividendos. O objetivo é devolver mais de R$ 200 bilhões até o final de 2022.

“Construir algo”

Os investimentos futuros em ações do BNDES em empresas brasileiras “devem ser algo vinculado a uma privatização — investir em uma empresa que pretende ser privatizada, que é o primeiro passo para a privatização — ou que tenha uma clara perspectiva de desenvolvimento, de construir algo, criar alguma coisa ”, ele disse.

» Eletrobras: Entre as vendas futuras estão a Eletrobras, estatal de eletricidade. O BNDES disse que o governo concluiu privatizações no total de US$ 28 bilhões em 2019, em comparação com a meta de US$ 20 bilhões anunciada no início do ano. Números maiores devem ser esperados em 2020 e 2021, disse ele.

Entre as vendas futuras estão a Eletrobras, estatal de eletricidade, e a empresa de correios, que “também já está no caminho certo”, disse Montezano. As novas prioridades para privatizações e empréstimos serão os setores de gás, saneamento e água, além de rodovias, ferrovias, aeroportos e concessões portuárias. “Queremos ter certeza de que não haverá falta de financiamento para o saneamento”, disse Montezano no evento do Bradesco.

Por Bloomberg

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