Receio danado de sucumbir aos clames da Rede Globo, gravar sobre o “Brasil que eu quero” e inadvertidamente ser considerado bipolar por especialistas do ramo da saúde, mas “quase” razoável” pelos que completaram o curso introdutório de Economia e que utilizam o bom senso como vetor único nas argumentações sensatas e apolíticas.

Entre idas e vindas, o governo aceitou reduzir o preço do Diesel em 10%, não por 15 dias como anteriormente acordado, mas por 30 dias, colocando o tesouro (governo!) para assumir esse subsídio, dado que a Petrobras e sua diretoria, honrosa e corretamente não aceitaram voltar às catacumbas do intervencionismo nos preços.

Tem sido uma queda de braço e tanto. De um lado uma classe de caminhoneiros que não concordam com o aumento do preço dos combustíveis (ninguém gosta disso mesmo!), amparados sutilmente por setores econômicos que torceriam o nariz se tivessem que aceitar o repasse desse aumento para toda a sua cadeia de produção.

Todo esse respeito a greve dessa classe trabalhadora dos caminhoneiros sempre teve um interesse econômico por trás, mas nas mídias sociais apareceu com toga de apoio solidário e humanitário. Então tá!

Mas e como ficam as contas do governo?

Em meio a um processo de consolidação fiscal e dívida pública crescente, como que o Tesouro aceita peitar esse subsídio?

Preguiça de discutir sobre a fraqueza política do atual governo, prefiro mesmo argumentar se todo esse acordo será benéfico para nós contribuintes tolos e se será mesmo um acordo de emergência ou que muito provavelmente será duradouro.

Será que logo o preço do petróleo se estabiliza, o câmbio volta a apreciar e o tesouro para de dar sua contribuição com o chapéu dos contribuintes?

Acho difícil por dois motivos:

1. O cenário econômico internacional e geopolítico mudou. Trump resolveu sair do acordo nuclear com o Irã e certamente muito em breve teremos 2.6 milhões de barris a menos a escoar no mercado mundial. Some-se a isso as paradas não programadas de produção na Venezuela e você percebe que o preço do petróleo não deverá recuar tão cedo;

2. A política fiscal expansionista de Trump com corte de impostos certamente jogará mais lenha na já aquecida economia norte-americana. Prova disso, são os rendimentos dos bonds de 10 anos dos EUA que chegaram a atingir 3.11% na semana passada.

Tudo junto e misturado com uma eleição brasileira fragmentada e difícil, como será que o investidor deve estar raciocinando? Deixa eu pensar!

Quer dizer que os EUA estão pagando mais em seus títulos, o Brasil deve ficar mais arriscado, portanto devo ou não ficar posicionado em Reais ao invés de USD? Pergunta dificílima. Arrisco dizer que a tendência seria de mais depreciação de nossa moeda.

Petróleo ainda em tendência de alta e provável maior depreciação cambial torna o acordo emergencial a ser suportado pelo Tesouro, decidido no dia 24 de maio, como algo que deverá ser bem mais duradouro, com alguns efeitos para nós contribuintes: Mais impostos lá na frente, e ou, mais cortes em setores essenciais da economia (saúde e educação), e ou, maiores taxas de juros, dado maior risco, demandados por nós para financiarmos uma maior dívida pública.

É tá difícil!


 

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Roberto Dumas
Mais de 30 anos de experiência no mercado financeiro. Trabalhou em instituições renomadas (UBS, Citigroup, Lloyds Bank e Itaú BBA). De 2007 a 2011 representou o banco Itaú BBA em Shanghai. Também atuou no banco dos BRICS em Shanghai (New Development Bank) na área de operações estruturadas e risco de crédito. Dumas é Mestre em Economia pela Universidade de Birmingham na Inglaterra. Mestre em Economia Chinesa pela Universidade de Fudan (China). Graduado e pós-graduado em administração e economia de empresas pela FGV e Chartered Financial Analyst conferido pelo CFA Institute (USA). Professor de Economia Internacional e Economia Chinesa do INSPER, IBMEC São Paulo, Fundação Instituto de Administração (FIA-USP) e Saint Paul Business School. Professor Convidado da China Europe International Business School (CEIBS) e Fudan University (China).

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