Home>GD Brasil>Don´t cry for me Argentina! Again!?
Imagem: PEXELS
GD Brasil Opinião Política e Economia

Don´t cry for me Argentina! Again!?

Pontoon-e |

Mesmo depois da morte da populista esposa de Peron, Evita Peron em 1976, a quebra do plano de conversibilidade do Ministro da Economia ou “the legend” Domingo Cavallo em 2002, pelo então presidente Duhalde, a Argentina volta às turras com o mercado internacional e com o FMI.

Após anos flertando com o populismo estúpido, retrógrado, intervencionista e inócuo de Cristina Kirchner, o presidente Mauricio Macri assume prometendo reverter os desequilíbrios e desarranjos macroeconômicos observados até por participantes de programas tipo “topa tudo por dinheiro”, o qual, eu adorava! Aliás, pausa para três Vivas para o Soberano e exemplar comunicador “Silvio Santos”.

Mas vamos trabalhar. O que aconteceu com a Argentina que mesmo após anos de intervencionismo patético, acabou passando o pires ao FMI para fechar suas contas e o que isso impacta o nosso país. Vejamos:

  1. O Presidente Macri ao invés de reverter as atrocidades econômicas do governo anterior em uma tacada só, reposicionando os preços há tempo defasados e mantidos artificialmente abaixo do equilíbrio, como tarifas de serviços públicos, preferiu fazê-lo paulatinamente. O filósofo italiano Maquiavel (1469 – 1527) em sua obra “O Príncipe” deixa claro que o mal deve ser feito de uma única vez, e o bem deve ser feito aos poucos, Mas, o simpático presidente Macri temeroso em perder seu apoio popular e no Congresso buscou ajustar esses desarranjos paulatinamente, sem reestabelecer o equilíbrio das tarifas públicas de uma vez e ainda sendo leniente com a inflação. Já em dezembro de 2017 o Banco Central da República da Argentina (BCRA) decidiu afrouxar sua meta inflacionária de 12% para 15%, reduzindo posteriormente a taxa básica de juro em 0.75%, como se as expectativas inflacionárias já estivessem ancoradas.
    Ao aumentar a meta da inflação e cortar a taxa básica de juro, a autoridade monetária já sofreu uma arranhada na sua credibilidade, colocando os agentes econômicos a se perguntarem qual seria a âncora que deveriam basear suas expectativas inflacionárias.
  2. Com déficits externos da ordem de 4.8% do PIB e fiscal de 5.5% do PIB, além de uma dívida externa de curto prazo de US$52 bilhões para um montante de reservas internacionais de US$35 bilhões (ex-FMI) e aumento de juros nos EUA, mais uma vez os agentes econômicos DOMÉSTICOS e internacionais perceberam que a conta dificilmente fecharia e passaram a buscar refúgio novamente na moeda do Tio Sam. Em 2018, o Peso Argentino já perdeu mais de 50% de valor.
  3.    Com tamanho buraco nas contas externas e dívida externa vincenda de curto prazo comendo todas as reservas internacionais, o BCRA decidiu mudar de foco. Ao invés de se manter incólume na meta de inflação, procurou defender o câmbio subindo a taxa de juro para 45% e depois para 60%. Enquanto nesse interim, já conversava sobre um empréstimo junto ao FMI de US$50 bilhões que acabou de aumentar para US$57 bilhões.
  1. Esta semana (25/set/2018) o então presidente do BCRA, Luís Caputo, alega motivos “pessoais” e resolve ficar em casa cuidando de seus afazeres e pede demissão como maestro da política monetária da Argentina. Argumenta-se que o pedido de demissão foi as rusgas que teve com o FMI, pois Caputo queria intervir no mercado cambial como forma de defender o peso argentino. Ora a literatura econômica está lotada de papers acadêmicos mostrando que intervenções cambiais quando esterilizadas (manutenção do juro básico) não funcionam em momentos de mudança dos fundamentos macroeconômicos. Para que intervir se a tendência é de depreciação do Peso? Para queimar os recursos que o FMI acabou de emprestar? Se essa foi a real razão de sua demissão, academicamente posso dizer: Já foi tarde!

Mas o que o Brasil tem a ver com isso? Vejamos: Aproximadamente de 65% a 70% das nossas exportações de veículos e autopeças tem como destino a Argentina. Após enfrentar a quarta greve geral esse ano o país logrou encolher 5.8% em maio de 2018 comparado com o mesmo período do ano anterior e 4% no 2° trimestre do corrente ano. Com uma taxa de juro de 60% ao ano e ajustes fiscais requeridos pelo FMI, provavelmente a Argentina terá um ano de 2019 bem mais difícil, o que certamente deverá impactar em nossas exportações de autopeças e veículos. Para o segmento de veículos, o “calor” maior virá pela menor criação de empregos menor renda dos trabalhadores, isso sem levar em consideração a economia local, pois este segmento conta com o apoio de suas matrizes na Europa, Ásia e EUA. Mas o segmento de autopeças deverá sofrer um pesado baque, principalmente se suas vendas forem predominantemente para o setor externo.

Ainda assim levanto mais um ponto de preocupação: Se em 2019, o PIB Argentino estiver em franco encolhimento, quer pela taxa de juro mais alta do mundo, quer pelos ajustes fiscais necessários demandados pelo FMI, qual a probabilidade do Presidente reformista Macri ser reeleito? Deixa me refazer a pergunta? Qual a probabilidade que a Argentina em meio a uma recessão econômica não acabe voltando para o antigo populismo peronista dos Kirchners ou afins? Isso sim seria grave!

Enfim, torcer contra os nossos Hermanos é folclórico apenas em final de campeonato de futebol, agora seria melhor que eles se dessem bem, muito bem.

 

Roberto Dumas
Mais de 30 anos de experiência no mercado financeiro. Trabalhou em instituições renomadas (UBS, Citigroup, Lloyds Bank e Itaú BBA). De 2007 a 2011 representou o banco Itaú BBA em Shanghai. Também atuou no banco dos BRICS em Shanghai (New Development Bank) na área de operações estruturadas e risco de crédito. Dumas é Mestre em Economia pela Universidade de Birmingham na Inglaterra. Mestre em Economia Chinesa pela Universidade de Fudan (China). Graduado e pós-graduado em administração e economia de empresas pela FGV e Chartered Financial Analyst conferido pelo CFA Institute (USA). Professor de Economia Internacional e Economia Chinesa do INSPER, IBMEC São Paulo, Fundação Instituto de Administração (FIA-USP) e Saint Paul Business School. Professor Convidado da China Europe International Business School (CEIBS) e Fudan University (China).

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *