O “Gap” de Informação

Com o término das eleições presidenciais, as atenções agora se voltam para a formação da equipe de ministros que irá compor o novo governo. Capacidade técnica, experiência e eliminação da ingerência política é o que se pede, mas principalmente o que se espera deste novo governo.

Brasília-DF, 20/07/2011. Fotos do Palácio do Planalto. Foto: Roberto Stuckert Filho/PR.

Até o momento os sinais são muito positivos e promissores, tendo em vista o perfil técnico e a experiência dos nomes que comporão a futura equipe do novo governo (Paulo Guedes, Sérgio Moro, Joaquim Levy, Augusto Heleno, Roberto Campos Neto, Roberto Castello Branco, Tereza Cristina e etc.), mas principalmente o que tais nomes representam em suas áreas.

Para o setor elétrico não esperamos nada diferente disto.

Ao longo da campanha presidencial eu tive a oportunidade de participar de alguns eventos promovidos por agentes do setor, os quais contaram com a presença do professor associado do departamento de Economia da Universidade de Iowa (EUA), Luciano Castro, como representante do então candidato Jair Bolsonaro.

Confesso que fiquei bem impressionado com tudo o que foi dito e sinalizado.

Nestes eventos, ficou muito claro a adoção de uma linha liberal, ou seja, pouco intervencionista e pró-mercado, tendo a privatização como pano de fundo para reduzir a presença estatal no setor.

De uma forma geral a proposta do novo governo revela um certo alinhamento com o projeto apresentado no governo Temer e que prevê, entre outros pontos, abertura do mercado, racionalidade econômica e fim dos subsídios cruzados, mas com uma visão mais acelerada e um tom de mercado mais agudo.

Isso soa como música para os ouvidos de qualquer investidor, principalmente em um setor que foi severamente penalizado ao longo dos últimos 15 anos por uma série de desventuras, péssimas decisões políticas e ingerências de toda natureza.

Há razões para otimismo sim, mas devemos alertar para a importância do diálogo na construção de um marco regulatório mais moderno e alinhado com as demandas e potencialidades oferecidas pelo advento das novas tecnologias.

Neste capítulo eu gostaria de trazer um tópico, que na minha opinião tem sido pouco abordado e que deveria ser incluído nas futuras discussões setoriais, dada a sua relevância: “Gap” de Informação.

O “gap” de informações entre os diversos agentes, mas principalmente entre o consumidor e o comercializador/gerador, ainda é gigantesco e precisa ser melhor endereçado na nova regulamentação, principalmente se pretendemos ampliar o mercado livre de energia e, ao mesmo tempo, dar condições adequadas  e justas a todos os participantes.

O consumidor precisa conhecer não apenas como o preço é formado, mas ter acesso garantido e sem custos ao preço que a energia está sendo negociada no mercado livre (preço de tela), assim como ter acesso a uma curva preços futuro, que mostre a tendência e os riscos envolvidos.

De uma forma geral eu vejo a eliminação do “gap” de informação como o primeiro passo para a ampliação do mercado livre, pois sem a “democratização” da informação relativo a variável preço da energia, a ampliação do mercado livre deveria ser repensada.

Eu sei que trata-se de uma “cruzada” difícil, mas fundamental para mitigar as assimetrias atuais e futuras.


 

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Marcos Severine
Marcos Severine atuou ao longo dos últimos 25 anos no mercado financeiro em instituições de primeira linha (JPMorgan, ItaúBBA, Société Générale e Intesa BCI). Embora tenha atuado por “bons e longos” anos nas áreas de Investment Bank e Project Finance, destacou-se verdadeiramente como analista sell-side, liderando a cobertura do Setor de Energia na América Latina. Ao longo desta jornada foi diversas vezes eleito top-ranked analyst pela revista especializada “Institutional Investor” (LATAM e Brasil), através de votação realizada junto a investidores institucionais locais e estrangeiros. Severine participou de todas as ofertas de ações do setor elétrico brasileiro realizado ao longo dos últimos 20 anos, acumulando uma grande experiência e vivência, mas principalmente “histórias”, que ajudou a construir e a contar para uma seleta gama de investidores, interessados em multiplicar o seu capital, espalhados nos quatro cantos do mundo. Após milhares de quilômetros percorridos e dezenas de países visitados em intermináveis roadshows - muitas vezes três países em um mesmo dia - contando suas “histórias de investimento” para investidores interessados ou não (acreditem não foi fácil vender o Brasil e o setor elétrico), Severine decidiu se aposentar do mundo “mágico” do sell-side no início de 2016 e partir para novas aventuras.

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