Temos assistido a uma afronta aos princípios macroeconômicos que fariam ruborizar até vestibulandos do curso. Óbvio que os defensores de Trump ingenuamente (note que estou sendo generoso quanto ao conhecimento deles)  ou levianamente, utilizam o atual crescimento econômico dos EUA como resultado perene das medidas de seu presidente, sem considerar a herança do governo passado ou os efeitos transitórios das atuais medidas. Mas fé não se discute. Já sabemos disso aqui no Brasil.

Dividem os economistas como esquerdistas sociais e direitistas neo liberais. Aliás muitos economistas acabam se apresentando assim. Incrível. Mas, deixa eu entender. Quem não se encaixa como economista que defende o social, defende o que? Pautas anti-sociais e anti-desenvolvimentistas? Quem não quer o bem do próximo, tem problemas psíquicos sérios, mas dai a condenar toda uma teoria econômica neo-liberal como rentista e contra o povo, beira ao ridículo, ao escândalo intelectual ou à falta de vitamina D na infância. Alguns ainda em confusão pós traumática talvez, ainda acreditam que a politica protecionista, do tipo estratégia de substituição de importações de Trump seja de direita, ou o que quer que o valha.

Mas foquemos na política externa de Donald Trump: penetrando nesse universo científico intangível ao ser humano comum (??), há de se questionar se esse crescimento econômico dos EUA será perene pelos próximos 2 ou 3 anos e se essa escalada protecionista melhorará as contas externas do país.

Vejamos: se os EUA estão próximos do pleno emprego, o que já é demonstrado pelo nível de inflação e pelos aumentos de juros do FED, será que em algum momento essa política monetária contracionista não afetará a política fiscal expansionista de corte de impostos de Trump? Para quem ainda não entendeu. Imagine um avião com duas turbinas, sendo que uma delas busca dar um empuxo ao avião (política fiscal) e a outra busca freia-lo (política monetária). Acalmemos portanto vossos gritos contra ordem mundial e a favor de Brexit e Trump. Isso é teoria econômica e não torcida de arquibancada. Alguns que veem o mundo pelas lentes de Fla-Flu ou Corinthians-Palmeiras acabam lhe dando a alcunha de esquerdista! As taxas de juros dos EUA de curto prazo vão aumentar, assim como as de longo prazo, mais do que compensando o impulso fiscal, acarretando portanto menor crescimento lá na frente. Simples assim. Os canais desse crescimento menor são óbvios: Além do aumento das taxas de juros, a apreciação do USD subsequente acabará por limitar o impulso fiscal (vide Reagan). Para os defensores Trumpianos preguiçosos no pensamento e nas sinapses neurais, acalmai portanto vossos corações, segurem a produção de cortisol pelas vossas glândulas supra renais, mas a economia dos EUA vai crescer menos (infelizmente!!) e maiores taxas de juros devem suscitar correções em NY em 12 meses.

Quanto ao protecionismo. Como melhorar ou diminuir o déficit das contas externas dos EUA, se mais dinheiro é dado a população para ir às compras via corte de impostos? Dado que os EUA estão próximos do pelo emprego, como pedir a população a não aumentar suas compras no exterior, dado que a poupança doméstica diminui? Talvez o déficit com a China diminua, mas aumentará com outro parceiro. E depois? Será que os EUA ou Trump admitirá que a deterioração do nível de sua poupança domestica e piora nas contas externas é produto de sua política doméstica ou vai acabar culpando a China, o México, o Canadá, a Nicarágua ou Tuvalu?


 

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Roberto Dumas
Mais de 30 anos de experiência no mercado financeiro. Trabalhou em instituições renomadas (UBS, Citigroup, Lloyds Bank e Itaú BBA). De 2007 a 2011 representou o banco Itaú BBA em Shanghai. Também atuou no banco dos BRICS em Shanghai (New Development Bank) na área de operações estruturadas e risco de crédito. Dumas é Mestre em Economia pela Universidade de Birmingham na Inglaterra. Mestre em Economia Chinesa pela Universidade de Fudan (China). Graduado e pós-graduado em administração e economia de empresas pela FGV e Chartered Financial Analyst conferido pelo CFA Institute (USA). Professor de Economia Internacional e Economia Chinesa do INSPER, IBMEC São Paulo, Fundação Instituto de Administração (FIA-USP) e Saint Paul Business School. Professor Convidado da China Europe International Business School (CEIBS) e Fudan University (China).