Olá cartunistas: uma lição da 1ª Guerra que pode ser útil na nossa luta contra a crise. A Guerra ensinou como crises e guerras podem ser apresentadas como lutas infantis. Cartoons nesse estilo voltaram a ser usados, mas são marca da 1ª Guerra. Por aqui, não vi ainda um esforço sério rumo a cartoons onde crianças apareçam sempre como adultos para abordar a crise brasileira.

Não resolvem conflitos, mas pode ao menos sugerir que a disputa só dura até o fim do dia, quando todos voltam ao conforto de casa, e ao jantar com pais e irmãos.

No dia seguinte, a luta pode até ter outro formato: mudam as brincadeiras, os inimigos e os vencedores.

Em 1914-18, muitos cartunistas europeus dos dois lados desenharam soldados reais como crianças inocentes. O estilo começou nas Potências Centrais (Alemanha, Austro-Hungria e Itália) e logo se espalhou na Tríplice Entente (Rússia, Reino Unido e França).

Na Rússia, por exemplo, tornaram-se populares os cartoons em que soldados alemães, austríacos e otomanos eram garotos felizes e brincalhões – alheios ao ódio, à raiva e aos horrores do conflito real.

Desenhos descreviam o conflito como um jogo infantil. Vamos lá? Ao redor da Europa, multiplicaram-se cartões postais em que crianças-soldados enfrentavam inimigos, ocupavam trincheiras, comandavam aviões e navios militares… e escreviam cartas para sua família.

Não guerra! Só um jogo entre crianças de bochechas rosadas. Sem feridos ou mortos, que estavam da propaganda convencional. Supõe-se que esses cartoons tiveram algum um efeito moral: permitiam ao menos supor que, no fundo, todos eram humanos, e a guerra não deixaria milhares de mortes e tanto sangue derramado.

Na Rússia, as crianças-soldados desses desenho diziam frases patrióticas: “Você quer lutar contra a gente? Ah, você vai chorar!”. Ou: “Vamos atacar o inimigo, irmãos! Não percamos tempo!”

Firmou-se o estilo. Os cartunistas populares incluiram o alemão Albert Heime e, com foco em crianças, o russo Vladimir Taburin. Eis alguns desses cartoons europeus da 1ª Guerra:

Albert Heime, da Alemanha

 

Vladimir Taburin, da Rússia

 

Este é do Reino Unido e da França

Crianças encarnando o Brasil em crise

Cartunistas brasileiros podiam recorrer a crianças para espalhar lições sobre a crise e suas incertezas. Como nossa luta é interna e  não contra outros países, um desafio seria como distribuir os personagens nessas brincadeiras.

Nos jogos, talvez algumas crianças tivessem sempre os mesmos aliados e inimigos, e outras mudassem de grupo. Que traços as separariam?

Talvez sua altura, sexo, cor, uniforme, gosto musical, a equipe em quem joga, a cidade e o bairro em que mora, os jogos eletrônicos de que dispõe… Nos jogos em quadrinhos: a criança mais briguenta no início seria sempre a vencedora na última página?

Imagino cartoons e quadrinhos com crianças de terno e gravata no Congresso, nos partidos, nas empresas, no mercado financeiro… Vejo também sapecas figuras corruptas roubando em um jogo de cartas, alterando peças em uma partida de  xadrez, ou garantindo que apenas seu grupo desfrute de um brinquedo em um parque.

Sobre empregos, imagino uma criança enfurecida porque, de novo, hoje sua mãe não preparou seu jantar e sua sobremesa. Voltará a se convidar para comer jantar e sobremesa na casa de um vizinho onde ainda há ambos todo dia.

Uma música

Comparar adultos a crianças lembra a música “Era uma Vez”, da Kell Smith, gravada também por Marisa Monte. Nos tempos pré-crise, talvez o Brasil tivesse mais “crianças”. De certa forma, a  letra da música também fala sobre crise:

   Era uma vez
   O dia em que todo dia era bom
   Delicioso gosto e o bom gosto das nuvens
   Serem feitas de algodão
   Dava pra ser herói no mesmo dia em que se escolhia ser vilão
   E acabava tudo em lanche
   Um banho quente e talvez um arranhão

   É que a gente quer crescer
   E quando cresce quer voltar do início
   Um joelho ralado dói bem menos que um coração partido

   Dá pra viver mesmo depois de descobrir que o mundo ficou normal
   É não permitir que a maldade do mundo te pareça normal
   Pra não perder a magia de acreditar na felicidade real
   E entender que ela mora no caminho e não no final

   Dava pra ver, a ingenuidade, a inocência cantando no tom
   Milhões de mundos e universos tão reais quanto nossa imaginação
   Bastava um colo, um carinho
   E o remédio era beijo e proteção
   Tudo voltava a ser novo no outro dia
   Sem muita preocupação

Hoje o Brasil tem menos “crianças” 

Enfim, a crise faz lembrar o tempo em que muito mais brasileiros eram “crianças”: além de mais mortalidade infantil, mais brasileiros viviam na pobreza. Ainda temos uma das piores distribuições de renda do mundo, mas o quadro melhorou nos últimos 40 anos. A crise é menos pueril do que seria há 40 anos, quando ela ainda geraria mais joelhos ralados do que corações partidos. Seria mais tolerável?

Avançamos nas últimas décadas em duas frentes: a renda per capita cresceu para todos, e subiu mais entre os pobres. Tornaram-se menos pueris.

Comparado a meados dos anos 70, a crise se parece mais a corações partidos do que a joelhos ralados. Em 1976, nosso Índice de Gini era 0,62. Em 2014, havia recuado a 0,52. Ainda alto, mas menos assustador. E neste período, a renda per capita subiu muito: de R$ 604 para R$ 1.152.

Ou seja: em 4 décadas, o Brasil se tornou mais rico e menos desigual. Mais adulto! A crise dói por muitas razões: paramos de amadurecer em renda e desigualde, firmamos um quadro fiscal inaceitável, andamos pouco em educação, criamos um país mais exposto à corrupção, entre outros problemas.

Talvez cartunistas e desenhistas possam abrir essa nova frente do combate à crise: os cartoons que usem crianças e seu jogos para descrever o conflito entre adultos. Ajudaria a mapear os atores da crise, a identificar aliados e inimigos, e quem sabe a tornar o quadro geral mais compreensível.

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O site russo Russia Beyond the Headlines tem dois posts sobre a história do uso de crianças como adultos em cartoons:

Na 1ª Guerra:
Why did Russian artists depict the enemy as innocent kids during WWI

E na Revolução:
10 postcards showing Russian revolution

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