Há alguns meses atrás tinha publicado em meu blog o desenrolar do Brexit chamando o post de “Quando os Lordes perdem a cabeça”. O artigo saiu no Estadão também. Mas hoje eu até mudaria um pouco o título do post para “Quando os Lordes RECUPERAM as cabeças”.

Ontem à noite em um voto de monção por 328 a 301, Boris Johnson o atual Primeiro Ministro enfrentou sua primeira e mais pesada derrota. Nesta monção aprovada até por membros do seu próprio partido (Conservador), ficou decidido que os MPs irão votar uma lei que obriga o Primeiro Ministro (PM) a requisitar uma extensão do prazo de saída da UE para 31/Jan/2020, se o Parlamento não chegar a um consenso sobre o Brexit. Mas por que Boris perde? Seu interesse sempre foi em sair da UE com ou sem deal no dia 31/out/2019 e esse movimento, certamente atrapalha os planos do novo PM.

Mas e agora? Boris Johnson prometeu convocar eleições antecipadas (snap elections) caso essa lei seja aprovada, mas para aprovar eleições antecipadas, é necessário a aprovação de 2/3 da casa de 650 parlamentares, mas os líderes do partido trabalhista Jeremy Corbyn e dos liberais democratas já disseram que aceitariam uma snap election desde que a lei que obrigue o PM a pedir una extensão do prazo de saída do Brexit para a UE se nenhum consenso for atingido até 31/out/2019.

Ganha a UE, o UK, a economia mundial e o Brasil, pelos seguintes motivos:

Em um cenário de non-deal, o UK passaria a fazer parte da Organização Mundial do Comércio. Proposta amplamente defendida pelos hard brexiters e os principais riscos para a economia do UK, da EU não seriam nada desprezíveis. Vejamos:

A) SERVIÇOS FINANCEIROS: Aproximadamente 12% do PIB do UK vem de serviços financeiros: Bancos que estão na City de Londres perderiam seus “passaportes” que os permitem atender clientes em qualquer país membro da UE. Vários bancos já pensam em mudar suas branches para Dublin, Paris ou Frankfurt;

B) COMÉRCIO INTERNACIONAL: Em 2017, 44% das exportações do UK foram destinadas para países da UE, além dos 14% que vão para terceiros países, os quais costuraram acordos comerciais com a UE também. Por outro lado, 53% das exportações das nações da UE são destinadas ao UK. Com um non-deal, estima-se que o aumento médio das tarifas da UE para o UK seria de 5.7% sobree tudo que é exportado, ao passo que as exportações do UK para as nações da UE sofreriam uma tarifa média de 4.3%.

C) SETOR AUTOMOTIVO: As tarifas de sobre exportações de automóveis vindas do UK passariam para 10%. Assumindo que dos 1.67 milhão de automóveis produzidos no UK, 1.3 milhão são exportados e 54% vão para nações da UE, seria de esperar que algumas montadoras como a Toyota, Nissan, Honda e BMW já passassem a apresentar alguns planos em caso de um hard BREXIT. Como se não bastasse, 79% de todos os componentes que são utilizados na manufatura dos carros no UK são provenientes da UE os quais sofrerão com maior tributação.

 D) PRODUTOS ALIMENTÍCIOS, ANIMAIS E PLANTAS: Segundo o sindicato nacional dos agricultores do UK aproximadamente 65% dos produtos agrícolas são exportados para países da UE, os quais certamente em caso de um no-deal passarão a sofrer com taxas alfandegárias e inspeções fitossanitárias. Para os não membros da UE, as inspeções fitossanitárias afetam mais de 50% dos produtos agrícolas (incluindo animais) transacionadas, já para membros da UE apenas 2% desses produtos são sanitariamente checados.

 E) ECONOMIA: Em 2018, o déficit em conta corrente do balanço de pagamentos do UK atingiu 4.2% do PIB sendo largamente financiado por capitais voláteis. Ou seja, uma saída desorganizada da UE suscitaria uma fuga de capitais do UK, levando a uma expressiva depreciação da Libra Esterlina.

 F) SAÍDA DE EMPRESAS: Estima-se que as seguintes empresas já anunciaram ou pretendem anunciar suas saídas do UK para outros países membros da EU: Toshiba, Hitachi, Sony, Panasonic, Phillips, Honda, JP Morgan, Bank of America, Barclays e Unilever.

Um maxi-depreciação da moeda inglesa, aliado a um maior custo de produção, dada maiores tarifas e restrições a exportações, reduziriam a lucratividade das empresas. Depreciação cambial e maior custo de produção certamente aumentariam a expectativa inflacionária da Ilha e o retorno requerido dos bonds britânicos, afetando o nível de desemprego consideravelmente.

Mas e o Brasil com isso? Vejamos: A pauta de transações do Brasil com o Reino Unido não é grande. Não passa dos US$7 bilhões ao ano. Talvez o impacto não seja tão grande assim. Ledo engano. O Mercosul, bloco econômico no qual o Brasil faz parte, fechou um acordo de livre comércio com a União Europeia há alguns meses atrás. Nos próximos 15 anos, os 4 países do Mercosul zerarão suas tarifas de importação de 91% dos produtos vindos da União Europeia, como carros, autopeças, produtos farmacêuticos, químicos, vestuários, etc. Por outro lado, a União Europeia, se comprometeu a zerar as tarifas de importação de 92% dos produtos vindos dos países do Mercosul em até 10 anos. Nesse caso beneficiaram-se as exportações de suco de laranja, café solúvel, peixes, crustáceos, sapatos, tendo o etanol, o açúcar e a carne bovina que respeitar a quota anual durante o período de 450,000 tons, 180,000 tons e 9,900 tons, respectivamente. Finalmente após 20 anos de tratativas, o maior acordo comercial da história havia sido concluído, envolvendo 25% do PIB mundial e 780 milhões de pessoas, apesar de ainda sujeito à aprovação dos 28 países da União Europeia e dos 4 países do Mercosul, além do parlamento europeu. Os contrários, como sempre, que buscam arduamente defender seus nichos de mercado e evitar a concorrência utilizando-se da falácia que o acordo destruirá empregos, esquecem que o mesmo beneficiará 210 milhões de brasileiros que finalmente poderão comprar bens mais baratos e de melhor qualidade. Como se vê sempre existiu looby para minorias organizadas, mas nunca para maiorias desorganizadas, no caso, os consumidores. Existe ainda aqueles que usam e abusam da velha desonestidade intelectual, mas neste caso, nada a fazer.

Mas se o acordo parece ser benéfico para o bem-estar da maioria da população e o intercâmbio comercial Brasil e Reino Unido não é lá tão grande, qual o problema o Brexit poderia nos causar? Em 2018, o Brasil registrou um intercâmbio comercial com os países da União Europeia de US$76 Bilhões, tendo o Brasil exportado US$42 bilhões para aqueles 28 países ou aproximadamente 18% do total exportado por nós. Se em 31/out/2019 ou em 31/Jan/2020, o novo primeiro ministro Boris Johnson de fato conquistar maioria de votos no parlamento, convencendo os lordes a saírem da União sem um acordo, isso certamente não apenas afetará a economia do Reino Unido, mas todas as 27 economias remanescentes do bloco. Se a União Europeia apresentar um crescimento menor dado os impactos contracionistas advindo de um Brexit sem acordo, então aqueles que exportam para esses países passarão a exportar menos, como o Brasil e os outros países do Mercosul também, ocasionando assim um efeito contágio cruzado entre os 4 países do Mercosul e os 27 países da União Europeia.

Pouco se nota empresários e exportadores atentos a esse fato. Consequências da globalização para o bem e para o mal. Da mesma forma que somos beneficiados quando a China tenta mudar seu modelo de crescimento voltando-se mais para o consumo, ajudando nossas exportações de proteína animal e soja, também somos afetados negativamente quando nossos parceiros comerciais apresentam um menor crescimento econômico, vide Argentina.


 

 

 

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Roberto Dumas
Mais de 30 anos de experiência no mercado financeiro. Trabalhou em instituições renomadas (UBS, Citigroup, Lloyds Bank e Itaú BBA). De 2007 a 2011 representou o banco Itaú BBA em Shanghai. Também atuou no banco dos BRICS em Shanghai (New Development Bank) na área de operações estruturadas e risco de crédito. Dumas é Mestre em Economia pela Universidade de Birmingham na Inglaterra. Mestre em Economia Chinesa pela Universidade de Fudan (China). Graduado e pós-graduado em administração e economia de empresas pela FGV e Chartered Financial Analyst conferido pelo CFA Institute (USA). Professor de Economia Internacional e Economia Chinesa do INSPER, IBMEC São Paulo, Fundação Instituto de Administração (FIA-USP) e Saint Paul Business School. Professor Convidado da China Europe International Business School (CEIBS) e Fudan University (China).

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