Nos últimos três anos, a Câmara de Comercialização de Energia Elétrica contabilizou cerca de R$ 90 bilhões em operações do mercado de energia no Brasil com a participação de mais de 7 mil agentes. Estes números por si só ilustram o tamanho dos riscos para as empresas e players ligados ao setor elétrico brasileiro. Risco pode ser definido como a medida da incerteza que um investidor aceita tomar para realizar um ganho de investimento. Muito utilizada no mercado financeiro para avaliar o risco dos investimentos, a gestão de risco também é primordial no mercado de energia.

Caso não se faça uma boa gestão de risco, que passa por gerenciar volumes de energia negociados, preços e as condições climáticas esperadas, há boas chances de que haja uma perda financeira significativa, o que normalmente compromete toda a liquidez da empresa e a impede de levar adiante suas operações no mercado.

Agentes tomadores de risco, ou seja, aqueles que desejam maior retorno, naturalmente contam com maior grau de incerteza. Eles tendem a contratar volumes inferiores ao seu requisito e liquidar o seu déficit no Mercado de Curto Prazo – MCP, com a expectativa do preço da energia comercializada no mercado superar o Preço de Liquidação das Diferenças – PLD.

Como as ações negociadas no mercado financeiro, o preço da energia no Mercado de Curto Prazo também apresenta graus de volatilidade que são determinados por alguns fatores típicos do mercado de energia, como a hidrologia, uma vez que geração hidráulica representa cerca de 67% da matriz energética brasileira; o aumento da participação das fontes intermitentes na matriz energética; a geração térmica – acionadas para suprir a lacuna do consumo de energia deixada pelas demais fontes; a capacidade das linhas de transmissão; necessárias para transportar energia de um submercado superavitário para o submercado deficitário e o consumo de energia – bastante reduzido em decorrência da crise econômica dos últimos anos.

Além dessa volatilidade, há outra variável importante que precisa ser levada em conta na hora de gerenciar riscos, a judicialização que envolve o setor elétrico. Esse problema tem diversas fontes e gera incerteza de investidores.

Como não poderia ser diferente, pelo DNA da instituição, o conceito de gestão de risco também é amplamente discutido e utilizado no dia a dia das operações, além de ser essencial no monitoramento de mercado feito pela CCEE. Hoje, já são mais de 7.000 agentes associados à Câmara de Comercialização, número que não chegava a 3.000 ao final de 2014. Com o boom da migração de empresas vindas do mercado regulado para o mercado livre em 2016 (25 vezes maior do que no ano anterior), o número de operações também disparou. Esse aumento potencializa o risco.

Os maiores agentes, ligados a grandes grupos e com vasta experiência na complexidade de operações do mercado de energia, têm essa prática difundida em suas empresas e conseguem mitigar os riscos. Algumas delas chegam a criar comitês para discutir e implementar medidas de gestão de riscos.

No entanto, há uma preocupação crescente com as pequenas empresas que chegaram ao mercado livre nos últimos anos e que ainda devem chegar em 2018, os consumidores especiais. Essas empresas já chegam a quase 4.500 e, apesar da energia elétrica ser um insumo essencial em suas operações, a gestão dela não faz parte de seu core business. Por isso, a utilização de ferramentas de gestão de risco também deve estar disponível para as pequenas empresas sem expertise no setor elétrico.

A própria CCEE disponibiliza, desde o começo do ano, uma Calculadora de Risco CVaR (Conditional Value-at-Risk), que tem como objetivo calcular o risco de exposição dos agentes no Mercado de Curto Prazo. O CVaR é uma metodologia de cálculo de risco, utilizada pela calculadora para fornecer informações sobre a exposição do agente no mercado de energia.

A ferramenta permite a todos os agentes verificarem os seus riscos de exposição no Mercado de Curto Prazo – MCP, de acordo com os contratos de compra e venda registrados e validados na CCEE. As simulações podem ser feitas para períodos de projeção de três até 60 meses e a utilização da calculadora não impõe que o usuário possua conhecimento prévio sobre análise de risco. Com a proposta de abertura gradual do mercado livre, a gestão de riscos na comercialização de energia ficará cada vez mais importante, uma vez que o volume de empresas de tamanhos e segmentos variados da economia terão que se preocupar com a gestão de sua energia. Por isso, é essencial a disseminação de conhecimentos e ferramentas que tornem a gestão de riscos tão natural quanto o hábito de ligar e desligar o interruptor.


 

Compartilhe:

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *