“Não adianta ter lucro gerando impacto negativo para a sociedade”, diz presidente da empresa

As duas mensagens que a AES Corp. enviou ao mercado brasileiro ao se defender de duas investidas de fusão feitas pela Eneva neste ano são, primeiro, que a corporação não tem planos de deixar o Brasil e, segundo, que a AES Tietê está totalmente comprometida em gerar lucro investindo em tecnologias com impactos socioeconômicos e ambientais positivos.

“Não adianta ter lucro gerando impacto negativo para a sociedade. Queremos ser uma empresa lucrativa sendo uma empresa com impacto positivo”, afirmou o presidente da AES Tietê, Ítalo Freitas, em Live promovida pelo jornal Valor Econômico nesta segunda-feira, 14 de setembro.

O executivo fez questão de destacar que a AES Tietê foi alvo de duas ofertas hostis por uma empresa “com alta pegada de carbono” e que, ao rejeitar a oferta, a AES Corp. (controladora) confirmou sua posição de ofertar ao mercado brasileiro uma “energia que gera impacto positivo para a sociedade”.

“Estou muito feliz de estar numa empresa que gera esse impacto positivo para a sociedade e que foi corroborado por todos os movimentos de março para cá. É a comprovação máxima do compromisso que a empresa tem perante a sociedade brasileira”, disse.

Freitas disse que a empresa tem dois focos claros de investimento na transição energética: inovação tecnológica e produção de energia renovável – com destaque para investimentos em geração eólica e solar fotovoltaica; gestão de ativos, plataformas digitais voltadas ao cliente de varejo e sistemas de armazenamento de energia.

Plataforma digital para migração

Para ele, o Brasil “está atrasado” no processo de abertura do mercado livre. O que está previsto atualmente é que apenas em 2024 os consumidores com cargas igual ou superior a 0,5 MW poderão optar por escolher o seu supridor de energia elétrica.  “Isso está chegando tarde no Brasil”, destacou o executivo, apontando que as inovações tecnológicas estão surgindo para facilitar a vida do novo consumidor livre.

A AES Tietê pretende lançar em breve uma plataforma digital para facilitar esse processo de transição para os seus clientes. O executivo explicou que o consumidor precisa migrar de uma “forma suave”, de tal forma a se sentir no ACL como se estivesse no ACR, extraindo o benefício do preço competitivo que o mercado livre oferece ainda a um grupo seleto de médios e grandes consumidores de eletricidade no Brasil.

“Acredito que em 10 anos o mercado livre terá um peso muito maior do que o mercado regulado, e para isso acontecer precisamos ter uma plataforma fácil para a migração”, disse Freitas, que não precisou quando o novo serviço deverá ser lançado ao mercado, mas disse que há uma equipe multidisciplinar trabalhando forte na criação dos algoritmos e desse ambiente digital.

Para Feitas, um grande debate no país é como criar mecanismos que permitam aprimorar a gestão do risco de contraparte e insolvência no mercado livre. A solução não é simples e envolverá a aproximação do mercado de energia com práticas do mercado financeiro, abrindo um caminho importante para atuação de bancos e demais instituições financeiras atuarem no setor elétrico.

Em 2019, o mercado de comercialização de energia atravessou uma grande crise depois que alguns agentes operaram alavancados para além das duas capacidades de pagamento e deram um default de centenas de milhões de Reais: e, pior, levantou um questionamento sobre a robustez do mercado livre e dos players atuantes nesse ambiente.

Gestão da Eletromobilidade

A AES Tietê pretende atuar no processo de eletrificação dos veículos realizando o que Freitas definiu como “gestão da mobilidade”. O executivo chamou a atenção para uma importante questão relacionada aos investimentos em infraestrutura de distribuição: investir pensando no pico ou na média de consumo?

Essa questão se torna ainda mais importante diante da complexa dinâmica elétrica que a eletrificação da mobilidade impõe sobre o setor elétrico. “Vamos imaginar todo mundo descendo para o litoral de São Paulo no Verão. Vamos precisar de um reforço no sistema de distribuição nesse momento de muita gente na cidade, muito consumo de ar-condicionado e, ao mesmo tempo, as pessoas puglando seus carros…. E quanto todo mundo voltar, como a gente remunera essa infraestrutura: Isso é um desafio”, alertou o executivo.

No caso do Brasil ainda existe toda uma frota de carros flex que utilizam o etanol, que é um combustível com baixa pegada de cargo e importante para a economia do país. “Como a gente trabalha essa questão do etanol, pois temos por traz toda uma indústria”, pontou.

A tendência é que, com o avanço das tecnologias veículos elétricos, geração distribuída, energias renováveis e digitalização de processos, as concessionárias se tornem Operadoras de Sistemas de Distribuição, que na sigla em inglês é conhecida como DSO. “Vai chegar um momento que a distribuidora vai se tornar uma operadora de sistema de geração distribuída”, disse Freitas.

É buscando endereçar todas essas questões que o setor elétrico tem insistido há anos na modernização do modelo do mercado de energia, com propostas legislativas que tramitam a passos de tartaruga no Senado e na Câmara dos Deputados. “A tecnologia é um trator e passar por cima de todos. Na hora que a tecnologia entrar ela vai derrubando fronteiras e é o que pode acontecer com a eletromobilidade”, alertou Freitas.


 

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