Adjetivos: relembrando Nabokov e Gogol

É humano que toda pessoa decente tenha também um lado vulgar, mesmo que discreto e pouco relevante. Falta-nos uma palavra que descreva essa mistura entre o bem e o mal, tão humana e visível ao redor do mundo. Em geral, as palavras apenas elogiam ou condenam, com mais ou menos firmeza. No Brasil em crise, não seria útil se tivéssemos uma palavra a meio caminho?

Hoje, a palavra russa poshlost (пошлость)  costuma ser usada apenas no sentido de “vulgar”.  Mas, há algumas décadas, já esteve a meio caminho entre “decente” e “vulgar”. Curioso que outros idiomas europeus, inclusive o português, parecem nunca ter tido palavra para descrever esse lado tão humano: mesmo as pessoas do bem têm um discreto lado vulgar. Normalmente é preciso construir uma frase com dois adjetivos: um do bem e outro do mal.

 

Vladimir Nabokov sobre Gogol e a palavra “poshlost” 

Nabokov é considerado o maior escritor modernista russo-americano do século XX. Seu romance “Lolita”, de 1955, ocupa o 4o lugar na lista dos cem melhores romances do século passado, preparada pela “Modern Library” em consultas a editores.

Ele foi mais do que um escritor. Destacou-se como entomólogo, enxadrista, e professor de literatura. Nasceu em 1899 em São Petersburgo, em família nobre muito próxima ao czar. Como era normal na nobreza russa, em sua casa falava-se, além do russo, o francês e o inglês.

A revolução moveu a família de Nabokov. Primeiro, foram para a Criméia. Daí dois anos em Cambridge, e depois 15 anos em Berlim. Em 1937 a família foi para Manhattan, onde Nabokov foi entomólogo, professor de literatura, e continuou a escrever…

Antes dos EUA, já tinha publicado em russo seus primeiros contos. Ganhou fama mesmo quando passou escrever em inglês, incluindo Lolita. A formação trilíngue permitiu a Nabokov traduzir, para o inglês, seus originais russos. E para o russo seus livros em inglês, com Lolita. Ele foi seu próprio tradutor.

Além de escrever e ensinar sobre livros, ele estudou o que a literatura diz sobre um povo. Em 1944, publicou um breve livro sobre a vida e a obra do grande escritor russo Nicolai Gogol. O capítulo mais detalhado é sobre o livro Almas Mortas, que Gogol publicou em 1842.

 

Nabokov sobre Gogol e a Cultura Russa

O que significa пошлость? Quase sempre é traduzida como “vulgar”, e este é seu sentido atual. No livro biográfico sobre Gogol, Nabokov mergulhou também na qualidade do uso nesta palavra por Gogol. Embora poshlost seja traço comum entre os humanos, nunca existiu palavra com esse sentido em outros idiomas europeus. Diz Nabokov:

“A língua russa é capaz de expressar, com uma palavra impiedosa, um defeito que é generalizado, e para o qual as outras três línguas europeias que conheço não possuem nenhum termo específico”.

Ressalta que Gogol foi brilhante no seu uso. Sempre foi capaz de explorar: exatamente como uma pessoa correta é diferente de uma vulgar?

Entre os personagens de Gogol, os decentes não são isentos de vulgaridades, e sabem exatamente em que são vulgares.

É simples. Por exemplo, nos dias de hoje, talvez você note que é vulgar sua decisão de criar poluição ao ir de carro, e não a pé ou de ônibus, a um lugar que fica a apenas um quilômetro de distância. Isso não torna você 100% vulgar: é apenas uma pessoa decente, que guarda pequenos segredos vulgares, como todo nós.

Por outro lado, pessoas realmente vulgares sequer notam que podiam ser ao menos parcialmente decentes. Ao contrário: pensam mesmo que são a verdadeira perfeição! E esta forma de pensar é natural entre os que são realmente vulgares.

Nos livros de Gogol, a vulgaridade é uma espécie de miséria espiritual, presente em todas as pessoas. Em Almas Mortas, os servos mortos têm o ar totalmente “decente” conferido pela morte. E a vulgaridade pertence aos vivos: o personagem principal Chichikov, e os proprietários de terra com quem ele interage, são todos vivos, mas espiritualmente mortos. Nabokov considera genial a forma como Gogol cria situações poshlost em Almas Mortas.

 

Há alguma palavra em português com o sentido de poshlost?

Como outros idiomas, o português tem palavras que são só sua, como saudade. Mas aí a diferença está mais na forma de construir a frase… Afinal, a saudade não é algo entre “sinto falta” e “não sinto falta”. Já poshlost expressa dois traços humanos opostos: um ponto entre a decência e a vulgaridade. Não me ocorre uma palavra assim em português: que diga que alguém é decente, mas tem inevitáveis falhas morais.

Só me ocorrem palavras para pessoas totalmente vulgares ou decentes:

  •      São vulgares: os banais, triviais, baratos, falsos, comuns, sombrios, de mau gosto, uniformes, básicos, regulares, monótonos, planos, incapazes…
  • São decentes: os limpos, asseados, convenientes, apropriados, honestos, decorosos, capazes, honrosos, convenientes…

Fora isso, temos que usar um par de palavras, como por exemplo: “Fulano é banal mas também é honroso, não é?”

 

A atual crise brasileira

A crise nos revela importantes traços vulgares de figuras das quais víamos apenas o lado decente. E confirma o dano causado por pessoas que sempre soubemos ser vulgares.

Em seu livro, Nabokov vê um traço genial dos livros de Gogol. Especialmente em “Almas Mortas“, os personagens confirmam que o mundo humano é formado por dois tipos de pessoas. Uma maioria que é decente, mas tem seu lado vulgar, habitualmente discreto. E há sempre as pessoas que são apenas vulgares, e sequer percebem este seu traço.

As decentes sempre escondem traços vulgares, mesmo que simples. Eis exemplos atuais: colar em provas, desfrutar de cargos públicos generosos, jogar lixo na rua, usufruir do mundo legislativo, desrespeitar faixas de pedestre ou de ciclista, apoiar uma política econômica que é incorreta mas útil a quem a apoia, e assim por diante.

Já as pessoas 100% vulgares desconhecem esta relação entre lados do ser humano. Pensam, e gostam de declarar,  que são perfeitas, sem nada a aprender…

A leitura de Gogol por Nabokov ajuda a lembrar que a crise brasileira não é fruto apenas de Lula, Dilma e de sua turma. Afinal, não houve golpe, Lula não liderou o apoio local a invasão estrangeira, não mandou matar pessoas de alguma religião, nem cometeu outras vulgaridades clássicas. Lula e Dilma foram eleitos em quatro rodadas decentes, pelo voto de brasileiros que costumam ser decentes – mas que, como diria Nabokov, são humanos e têm seu lado vulgar, que pode incluir uma ideia torta sobre o papel do governo. E o lado vulgar de Lula incluiu a tendência de aliar-se a pessoas 100% vulgares – na política, na economia, ou em ambos.

Talvez possamos corrigir esses tempos difíceis e ajustar o papel do governo. Quem sabe podemos livrar o legislativo e a gestão pública de pessoas que são realmente vulgares no sentido do Gogol? E atrair pessoas decentes, mesmo que sejam marcadas por discretas vulgaridades? Como todos os humanos, diria Nabokov.

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Guilherme da Nobrega
Todos os textos deste blog são produzidos por Guilherme da Nóbrega, que se formou em Economia na London School of Economics and Political Science. Ao contrário do Brasil, onde o curso de economista é igual para todos, a LSE segue o estilo europeu: os alunos podem fazer escolhas ligeiramente diferentes, e sair da faculdade com títulos de economia diferentes. Como já fazemos aqui em engenheira, medicina, comunicação, e alguns outros, mas não em economia. Na época, a LSE tinha seis áreas de formação em Economia. Guilherme escolheu “Comércio Internacional e Desenvolvimento”. Na sua vida profissional, ele ajudou a fundar a Tendências Consultoria Integrada, talvez ainda a maior consultoria econômica do Brasil, sediada em São Paulo. Mais tarde, tornou-se economista do Banco Fibra, depois do Itaú, e daí para a Guide Investmentos. Teve dois breves períodos no setor público. Primeiro no Ministério do Trabalho, como assessor do ministro Edward Amadeo. E mais recentemente, alguns meses no Ministério da Fazenda, com o ministro Joaquim Levy.
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