Alheia ao sobe e desce do mercado de ações, seja este movimento motivado por dados econômicos, operacionais ou até mesmo políticos (proximidade das eleições gerais no Brasil), a verdade é que a Eletropaulo (ELPL3) encontra-se atualmente isolada destes eventos.

As ações da companhia registram alta de +144% desde o dia 31 de janeiro; isso mesmo leitor 144% de alta em quase quatro meses.

Esta performance impressionante está diretamente ligada à decisão dos controladores da Eletropaulo (AES Corp. e BNDES) em migra-la do Nível 2 de governança corporativa da bolsa (B3), para o Novo Mercado, onde existem apenas ações ordinárias.

A decisão de transformar a Eletropaulo em uma verdadeira “corporation” foi concretizada no final de novembro de 2017, com a conversão de todas as ações preferenciais da companhia em ações ordinárias. Como resultado o BNDES ficou com 18,7% do capital, a AES Corp. com 16,8%, a União com outros 8% e o mercado com 56,4%.

Ou seja, pela primeira vez o controle acionário da companhia estava nas mãos dos acionistas minoritários, abrindo espaço para uma oferta hostil (hostile takeover).

Para os poucos acostumados com os jargões do mercado financeiro, uma oferta hostil nada mais é do que a possibilidade de qualquer empresa ou investidor possa realizar a aquisição do controle acionário de uma empresa, mediante compra de ações em bolsa, sem consulta ou acordo prévio e independente da vontade dos controladores. Esta modalidade surgiu nos Estados Unidos e fortaleceu-se a partir dos anos 80.

Tendo isto como pano de fundo, a Energisa em um movimento ousado fez, no início de abril, uma oferta hostil pelo controle da Eletropaulo, avaliando a companhia em R$ 3,24 bilhões (R$19,38/ação).O movimento da Energisa aguçou o apetitie de outros “players” concorrentes (Neoenergia e Enel), acelerando o surgimento de outras ofertas hostis.

Após algumas semanas e vários “lances” de parte a parte, o mais recente capitulo ocorreu na noite de ontem (25), quando a Neoenergia informou ao mercado que decidiu subir para R$ 32,10 o valor que oferecerá para cada ação na compra da distribuidora de energia Eletropaulo.

A Neoenergia tomou a decisão horas depois de a Enel, sua rival na disputa pelo controle da Eletropaulo, ter feito oferta de R$ 32,00 por ação, o que levou a avaliação do valor da distribuidora para R$ 5,3 bilhões. Não satisfeita, a Enel elevou novamente sua oferta para R$ 32,20 por ação (R$ 5,4 bilhões) reforçando sua disposição de lutar pelo ativo até o fim.

Embora não possamos precisar quando esta luta pelo controle da distribuidora paulista estará concluído, algumas lições precisam ser extraídas deste lindo evento do capitalismo:

(1) A inexistência de mais “corporations” na bolsa brasileira é lesiva ao acionista minoritário e deveria ser repensada por parte dos controladores, pois poderia destravar um valor adicional ao preço das suas ações.

(2) Incapacidade de parte do mercado em avaliar todas as vertentes de valor de um ativo/empresa, levando em consideração a diferença gigantesca na percepção de valor da Eletropaulo entre os analistas e as empresas interessadas no ativo.

(3) Como as novas tecnologias – geração distribuída, armazenagem de energia, carro elétrico, usina virtual, entre outras – afetarão o valor das empresas que possuem acesso e relacionamento com milhões de consumidores.

Das lições acima mencionadas, pelo menos duas delas podem ser aplicadas para as demais distribuidoras de energia, o que sugere a necessidade de uma reavaliação por parte dos investidores e analistas do real valor econômico das empresas de distribuição.


 

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